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Economia

Aílton de Aquino: o diretor do BC que conduziu a supervisão do Banco Master

Aílton de Aquino, primeiro negro na diretoria do Banco Central, liderou a supervisão que acompanhou a situação do Banco Master e participou das reuniões institucionais que antecederam a liquidação da corretora do grupo.

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Servidor de carreira, baiano e formado em universidade pública, Aílton de Aquino Santos se tornou o primeiro homem negro na diretoria do Banco Central e chegou a presidir a instituição interinamente. À frente da fiscalização, ele ocupa um dos cargos mais sensíveis do sistema financeiro brasileiro.

Por Black News Brasil

Quem é Aílton de Aquino Santos

Aílton de Aquino Santos é servidor de carreira do Banco Central desde 1998. Começou como técnico, tornou-se auditor-chefe e chefiou áreas de contabilidade, orçamento e execução financeira até ser indicado para a Diretoria de Fiscalização, em 2023.

Formado em Ciências Contábeis pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e em Direito pelo Centro Universitário do Distrito Federal, Aílton tem pós-graduação em Ciências Contábeis e especializações em contabilidade internacional, engenharia econômica de negócios e direito público.

Em julho de 2023, após aprovação do Senado, ele se tornou o primeiro homem negro em quase 60 anos a ocupar uma diretoria do Banco Central.
Em 2024, durante viagem de Roberto Campos Neto à Suíça, assumiu interinamente a presidência do BC e, pela primeira vez, um homem negro comandou a autoridade monetária brasileira, ainda que de forma temporária.

Trajetória institucional no Banco Central

Aílton construiu carreira na área mais técnica e menos visível da instituição. Diferentemente de diretores recrutados no sistema financeiro privado, ele representa um perfil raro na cúpula do BC: servidor de carreira, formado em universidade pública e com trajetória consolidada dentro do serviço público.

Ao longo de mais de duas décadas, atuou em funções diretamente ligadas à integridade das contas do Banco Central: contabilidade, orçamento, execução financeira e auditoria. Esse percurso o levou à Diretoria de Fiscalização, uma das áreas mais sensíveis do órgão.

O que faz a Diretoria de Fiscalização

A Diretoria de Fiscalização é o braço do Banco Central responsável por supervisionar bancos, corretoras e outras instituições financeiras, verificando se seguem as regras prudenciais, de risco e de integridade.

Na prática, a diretoria:

  • acompanha a saúde financeira de bancos e demais instituições supervisionadas;
  • identifica operações irregulares ou fraudulentas;
  • pode recomendar medidas como intervenção, liquidação ou termos de compromisso;
  • dialoga com outros órgãos de controle, como CVM, Ministério Público e Polícia Federal.

É uma área que raramente aparece em manchetes, mas que decide o destino de instituições bilionárias e ajuda a preservar a estabilidade do sistema financeiro. Como diretor, Aílton representa a face institucional dessa supervisão.

Aílton e o caso Banco Master: qual é o papel dele

Em 2025, a operação Compliance Zero, da Polícia Federal, prendeu o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e expôs suspeitas de emissão de títulos de crédito falsos e operações com carteiras inexistentes. Em paralelo, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial de uma instituição do grupo, apontando grave crise de liquidez e violações relevantes às normas do sistema financeiro.

O nome de Aílton aparece nesse contexto porque, como diretor de Fiscalização, ele participou de reuniões institucionais com representantes do Banco Master entre 2024 e 2025 — inclusive um encontro em novembro de 2025, pouco antes das prisões, para tratar de questões de supervisão.

Esse tipo de reunião é parte do rito de supervisão normal do Banco Central e não indica, por si só, qualquer irregularidade. A atuação de Aílton é institucional: ele representa o braço de fiscalização do BC no momento em que o regulador passa a ver o banco como risco para o sistema.

Ruptura simbólica: um homem negro no comando da fiscalização

A presença de Aílton à frente da fiscalização ocorre em um sistema financeiro marcado por desigualdades históricas. No Brasil, a população negra enfrenta mais dificuldade de acesso a crédito, paga juros mais altos e está sub-representada nos cargos de comando de bancos e órgãos reguladores.

Desde a criação do Banco Central, nos anos 1960, a diretoria foi ocupada majoritariamente por homens brancos oriundos da elite econômica. A chegada de um diretor negro, de origem popular e formado em universidade pública, rompe um veto simbólico importante: pela primeira vez, alguém com esse perfil passa a comandar a área que pode intervir, restringir ou liquidar instituições financeiras.

Isso não significa, automaticamente, uma transformação estrutural do sistema financeiro, mas desloca o eixo de quem exerce o olhar regulatório e de onde esse olhar vem. É uma mudança relevante em um espaço que sempre esteve distante da experiência da maioria negra do país.

Lente BNB: raça, cobrança e disputa por poder institucional

Pela Lente BNB, a trajetória de Aílton de Aquino Santos revela mais do que a ascensão de um servidor competente. Ela expõe uma disputa silenciosa por espaços de poder em um Estado historicamente desigual.

Ao chegar à diretoria de Fiscalização, Aílton:

  • rompe uma barreira racial em um dos centros decisórios mais estratégicos do país, onde se definem regras que impactam crédito, juros e estabilidade bancária;
  • ocupa um cargo em que a palavra do regulador pode contrariar interesses de grandes grupos financeiros, governos locais e atores econômicos influentes;
  • passa a ser observado com um grau de cobrança que costuma ser mais duro com pessoas negras em posições de destaque do que com seus pares brancos.

Em casos como o do Banco Master, a pressão política e midiática tende a recair sobre o Banco Central como instituição. Em um cenário de forte disputa narrativa, é provável que parte dessa pressão também atravesse a figura de quem ocupa a Fiscalização. Isso exige respostas técnicas consistentes, mas também uma leitura atenta sobre como raça influencia a percepção pública de responsabilidade.

Por que Aílton importa para além de um caso específico

Para o Black News Brasil, Aílton de Aquino Santos importa por três razões centrais:

  1. Representatividade concreta: ele é o primeiro homem negro na diretoria do BC e o primeiro a presidir a instituição, ainda que interinamente.
    Isso envia um sinal direto a servidores e estudantes negros que veem o sistema financeiro e o serviço público de alto escalão como espaços historicamente fechados.
  2. Poder institucional: a Diretoria de Fiscalização não é vitrine, é músculo. Seu trabalho envolve decisões duras sobre bancos e corretoras,
    com impacto real sobre o sistema e sobre recursos públicos.
  3. Racismo estrutural e cobrança diferenciada: pessoas negras em posições de comando tendem a ser cobradas com mais rigor. A forma como a opinião
    pública e a política tratarão a atuação de Aílton será um teste da capacidade do país de julgar fatos sem transformar diversidade em alvo.

O que acompanhar daqui para frente

A trajetória de Aílton de Aquino Santos ainda está em curso. Para quem observa pela Lente BNB, alguns pontos merecem atenção:

  • como o Banco Central documenta e comunica suas ações de fiscalização em casos sensíveis;
  • se haverá tentativas de transformar a figura de Aílton em alvo político em disputas envolvendo bancos privados, governos e órgãos de controle;
  • se a presença de um diretor negro na fiscalização se traduzirá, no médio prazo, em uma agenda concreta de inclusão financeira e transparência sobre
    discriminações no acesso a crédito.

Em síntese, a história de Aílton de Aquino Santos ilumina a disputa por quem ocupa e controla as cadeiras onde o poder econômico é exercido. A presença delena diretoria de Fiscalização do Banco Central não encerra o debate sobre desigualdade no sistema financeiro brasileiro, mas abre uma janela importante: a de que diversidade e responsabilidade institucional precisam caminhar juntas se o país quiser um sistema mais moderno, confiável e, sobretudo, democrático.

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