Educação & Sociedade

SankoFamily inspira famílias negras com educação afrocêntrica

Rafael Santos e Maree Dias transformaram a SankoFamily em referência nacional de educação afrocêntrica, parentalidade preta e fortalecimento da infância negra, inspirando milhares de famílias com afeto e ancestralidade.

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Em 2020, em meio ao isolamento da pandemia, o casal Rafael Santos e Maree Dias começou a publicar nas redes sociais o cotidiano de sua família em Santo André, na Grande São Paulo. Em um país marcado pelo racismo estrutural e pela escassez de referências positivas para crianças negras, o que começou como o diário virtual de uma família rapidamente se transformou em um movimento. Hoje, a página SankoFamily reúne mais de 200 mil seguidores e se tornou referência em educação afrocêntrica, paternidade preta e fortalecimento da identidade negra.

O nome do projeto une a palavra “família” ao conceito de Sankofa, símbolo da tradição akan que significa “voltar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro”. Essa filosofia orienta cada conteúdo produzido pelo casal, pais de duas meninas: Areta e Amara.

A origem do projeto: uma resposta à ausência de referências
A SankoFamily nasceu de uma lacuna. Rafael, educador e pesquisador da psicologia do desenvolvimento infantil, conta que a decisão de criar conteúdo veio da dificuldade de encontrar exemplos de pais negros envolvidos ativamente na criação dos filhos. Sua formação acadêmica e seu interesse pela psicologia do desenvolvimento o levaram a autores que pensam a infância negra a partir de sua própria realidade, como o psicólogo pan-africanista Amos Wilson, cuja obra, que inclui títulos como A Falsificação da Consciência Afrikana, Despertando o Gênio Natural da Criança Preta e Psicologia do Desenvolvimento da Criança Preta, oferece uma base teórica para compreender as especificidades do desenvolvimento infantil negro.

Foi nesse contexto que Maree, ao perceber a ausência de referências, desafiou o marido: “Você precisa ser a referência que você não encontrou”. A fala de Maree foi o empurrão que transformou uma experiência pessoal em um projeto voltado a outras famílias negras que também buscavam referências positivas de cuidado, afeto e parentalidade.

O coração da SankoFamily
Areta e Amara não aparecem apenas nos conteúdos da SankoFamily; elas são a principal demonstração da educação que Rafael e Maree defendem. Com desenvoltura, curiosidade e segurança, as duas participam naturalmente das conversas, fazem perguntas, compartilham descobertas e mostram que a infância também pode ser um espaço de construção da identidade, da autoestima e do pertencimento.

Areta, a mais velha, costuma chamar atenção pela facilidade com que se comunica e pela maturidade com que aborda temas como ancestralidade, diversidade e identidade negra. Em um dos vídeos mais conhecidos da família, explicou com naturalidade o que significa ser uma pessoa com deficiência e resumiu a forma como enxerga a si mesma: “Me sinto muito bem sendo uma menina do jeito que sou: preta, feliz, inteligente, que vem de um povo forte.”

Futura cientista, como costuma dizer, Areta traduz em suas falas o ambiente de diálogo, incentivo ao conhecimento e confiança cultivado pelos pais.

Amara também exerce um papel central na construção dessa narrativa. Espontânea, comunicativa e cheia de curiosidade, ela participa ativamente das conversas e das experiências compartilhadas pela família, revelando uma infância em que brincar, aprender e questionar caminham juntos. Sua presença transmite leveza, mas também reforça um dos pilares da SankoFamily: educar crianças negras para que cresçam confiantes, livres para explorar o mundo e orgulhosas de quem são.

Juntas, Areta e Amara representam aquilo que a SankoFamily procura inspirar em outras famílias: crianças negras educadas com afeto, autonomia, consciência de suas origens e liberdade para desenvolver todo o seu potencial. Mais do que protagonistas dos vídeos, elas são o reflexo do projeto idealizado por Rafael e Maree e a prova de que uma educação baseada em ancestralidade, diálogo e pertencimento pode transformar não apenas uma família, mas inspirar milhares de outras.

A voz da maternidade preta: Maree Dias
Enquanto Rafael aborda a paternidade, Maree traz à tona as dores e delícias de ser mãe preta. Em maio de 2026, ela participou do episódio #195 do podcast Pretoteca, em um especial de Dia das Mães, onde falou sobre a solidão da mãe negra, os afetos, a ancestralidade e os desafios da maternidade no Brasil.

Maree também compartilhou a experiência do parto de Areta, quando a filha sofreu uma lesão no braço esquerdo em decorrência de violência obstétrica, uma realidade que atinge de forma desproporcional mulheres negras. Apesar da limitação nos movimentos, Areta cresceu com autonomia e autoestima, e a família transformou a vivência em aprendizado sobre potência e pertencimento.

“O Rafa não é só meu marido, ele é minha comunidade”, afirmou Maree, reforçando a importância da rede de apoio e do aquilombamento.

A presença de Maree no debate sobre maternidade preta é fundamental. Ela ocupa um espaço que historicamente foi negado às mulheres negras: o de falar sobre sua própria experiência sem ser silenciada ou estereotipada. Ao compartilhar sua história, ela inspira outras mães negras a se reconhecerem e se fortalecerem.

Além das redes: podcast oficial e participações
A atuação da SankoFamily vai além do Instagram. O casal promove encontros presenciais, desenvolve iniciativas educativas e produz um podcast próprio no Spotify, onde aprofunda temas como parentalidade preta, educação afrocêntrica, ancestralidade e infância negra.

Rafael e Maree também participam regularmente de programas e entrevistas sobre paternidade, maternidade e identidade negra. Entre eles estão o Pretoteca, Conversa de Pai e Paternidades Plurais, espaços em que compartilham experiências e reflexões sobre educação, masculinidades negras, ancestralidade e construção de referências positivas para crianças e famílias.

Essas iniciativas ampliam o alcance da SankoFamily e reforçam seu propósito: transformar experiências cotidianas em um debate público sobre educação, pertencimento e fortalecimento da infância negra.

A inspiração que ecoa além dos números
A principal contribuição da SankoFamily talvez não esteja nos números das redes sociais, mas no modelo de educação que Rafael e Maree decidiram compartilhar publicamente. Em vez de ensinar por discursos, eles ensinam pelo cotidiano: uma infância construída com afeto, ancestralidade, diálogo e pertencimento, onde identidade negra não é assunto ocasional, mas parte da formação de todos os dias.

Ao abrir as portas da própria casa, o casal amplia o repertório de referências disponíveis para milhares de famílias negras. Em uma sociedade ainda marcada pelo racismo estrutural, educar crianças negras para que conheçam sua história, reconheçam seu valor e ocupem os espaços com confiança também é uma forma de enfrentar o preconceito e romper ciclos de exclusão.

A presença da família nas redes rompe estereótipos historicamente associados à paternidade e à maternidade negras e reafirma que crianças negras podem crescer cercadas de autoestima, curiosidade, reconhecimento de suas origens e liberdade para desenvolver todo o seu potencial.

Mais do que um projeto de conteúdo, a SankoFamily demonstra que a mudança começa na forma como uma geração é educada. Ao transformar a própria rotina em ferramenta de aprendizagem e inspiração, Rafael, Maree, Areta e Amara ajudam outras famílias a construir crianças negras preparadas para enfrentar um mundo que ainda reproduz preconceitos sem abrir mão da própria identidade, do pertencimento e da esperança.

🌐 Onde seguir a SankoFamily

  • Instagram: @sankofamilly
  • Instagram de Maree: @marianasankofa
  • Spotify: SankoFamily
  • Participações: O casal já participou de episódios em podcasts como Pretoteca, Conversa de Pai e Paternidades Plurais, disponíveis nas principais plataformas de áudio.

Fontes consultadas

  • Terra: Menina de 5 anos viraliza ao explicar o que é ser PcD (11/01/2024) — link
  • Correio Braziliense: Conheça a Família Sanko, que defende a cultura preta e os direitos de PcDs (23/01/2024) — link
  • AlmaPreta: Família Sankofa compartilha educação afrocêntrica, afeto e inclusão nas redes (28/06/2025) — link
  • Repórter Diário: ABC tem projeto educacional voltado para crianças pretas (10/07/2022) — link
  • iVoox: #106 – Comparar paternidade preta com branca é uma violência (11/08/2023) — link
  • iVoox: EP27 – Conversa de Pai – Paternidade é Ancestralidade (02/11/2024) — link
  • Catarinas: Podcast aborda reconstrução da masculinidade dos homens pretos (23/08/2023) — link

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