Etiópia
A crise na Etiópia desafia o Brasil no novo BRICS e expõe limites da diplomacia sul-global
Apoiada por Lula, a entrada da Etiópia fortalece o eixo África-Brasil. Mas o agravamento do conflito interno em Adis Abeba coloca à prova a diplomacia brasileira: é possível falar em desenvolvimento enquanto o parceiro sangra?
Em 2025, a instabilidade na Etiópia voltou ao centro das atenções internacionais. Em janeiro, a Comissão Etíope de Direitos Humanos registrou dezenas de civis mortos em Amhara após confrontos com forças federais. Meses depois, em junho, investigações internacionais revelaram relatos de violência sexual sistemática contra mulheres tigrínias mesmo após o acordo de paz que, oficialmente, encerrara a guerra de Tigray em 2022.
A entrada da Etiópia nos BRICS, apoiada diretamente por Luiz Inácio Lula da Silva e anunciada na expansão de agosto de 2023, havia sido celebrada como uma vitória estratégica do Sul Global. O país, sede da União Africana e liderado pelo primeiro-ministro Abiy Ahmed, mantém laços históricos com o Brasil e simboliza o esforço de reposicionar a África no sistema internacional. Para Brasília, fortalecer Adis Abeba significa ampliar a voz africana em arenas globais e consolidar um mundo multipolar.
Mas a diplomacia avança enquanto o país afunda em crise. A guerra iniciada em Tigray em 3 de novembro de 2020 deixou um legado de instabilidade que nunca cessou. Com milhões de deslocados internos desde 2021, infraestrutura colapsada e o uso recorrente de drones, a Etiópia se aproxima de uma guerra de alta intensidade — uma “Ucrânia africana” que segue fora das manchetes globais.
A Lente BNB destaca essa assimetria: quando corpos negros morrem, o mundo tende a silenciar. O conflito etíope raramente ocupa capas de jornais europeus ou norte-americanos, e esse apagamento reforça a importância do Brasil como parceiro capaz de iluminar o que a mídia internacional ignora. Se o Ocidente mantém distância, cabe aos países do Sul Global especialmente ao Brasil ampliar a visibilidade do que acontece no Chifre da África.
Tradicionalmente, a diplomacia brasileira atua sob o princípio da não-intervenção, consolidado desde a Política Externa Independente dos anos 1960. É a defesa da soberania africana e a recusa a qualquer leitura de ingerência. Ainda assim, o dilema se impõe: como sustentar uma parceria estratégica quando o aliado vive instabilidade severa? O Brasil precisa da Etiópia forte dentro dos BRICS, mas enfrenta um parceiro que permanece em chamas.
Esse cenário abre espaço para outro caminho: o da mediação. Sem histórico colonial no continente e reconhecido como liderança moral do Sul Global, o Brasil tem credibilidade para atuar como facilitador. No G20 presidido pelo país em 2024 e nos BRICS ampliados, existe margem real para iniciativas de estabilização no Chifre da África — algo que a ONU, desde 2020, tem demonstrado dificuldade em conduzir.
A parceria Brasil–Etiópia é estratégica para a diáspora, para a economia e para a consolidação de um eixo afro-latino mais forte. Mas nenhuma agenda conjunta prospera com guerra aberta. O Brasil não é responsável pelo conflito, mas pode desempenhar papel chave na busca pela paz garantindo que o futuro dos BRICS represente mais do que expansão geopolítica.
Por: Redação Black News Brasil
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