Africa
Combates em Tigray ameaçam paz e elevam risco de nova guerra na Etiópia
Entre os dias 1º e 3 de agosto, combates entre o Exército federal etíope e as Forças de Defesa de Tigray (TDF) romperam a relativa estabilidade mantida desde o Acordo de Pretória, assinado em 2022. As autoridades de Tigray acusam o governo de Abiy Ahmed de iniciar uma ofensiva militar, enquanto Adis Abeba responsabiliza a TPLF pelo início dos confrontos. Centenas de civis já cruzaram a fronteira para o Sudão em busca de segurança.
No último sábado (1º), combates entre o Exército federal da Etiópia e as Forças de Defesa de Tigray (TDF) voltaram a atingir o norte do país, marcando a mais grave escalada militar desde a assinatura do Acordo de Pretória, em novembro de 2022. Segundo a Frente de Libertação do Povo de Tigray (TPLF), tropas federais iniciaram uma ofensiva na região de Shererina, no oeste de Tigray, próximo à fronteira com o Sudão.
As consequências humanitárias apareceram rapidamente. Centenas de civis já cruzaram a fronteira para o Sudão nos últimos dias, segundo fontes de segurança e equipes médicas ouvidas pela AFP. Os feridos receberam atendimento inicial em postos fronteiriços antes de serem encaminhados para unidades de saúde no interior sudanês. Moradores relataram explosões e tiroteios contínuos desde o início dos confrontos.
“O governo federal lançou um ataque esta manhã contra as forças de Tigray em Shererina”, afirmou Amanuel Assefa, dirigente da TPLF, à AFP. Segundo ele, a ofensiva utiliza artilharia pesada e drones e teria sido preparada pelo governo federal ao longo dos últimos meses.
Em comunicado, a administração de Tigray afirmou que Adis Abeba, desde a assinatura do acordo de paz, “continuou a se envolver em conspirações, bloqueios, cercos e preparativos militares”, classificando a ofensiva como uma “guerra aberta”.
O governo federal apresenta uma versão diferente. Abraham Belay, ministro que liderou a administração interina de Tigray durante a guerra, confirmou os confrontos, mas responsabilizou a própria TPLF pelo início da escalada. Em publicação nas redes sociais, declarou: “Basta de guerra. Resolvamos nossas diferenças por meio do diálogo.”
O especialista em política etíope Kjetil Tronvoll, do Oslo New University College, classificou os acontecimentos como o “incidente mais sério” desde o acordo de paz firmado em 2022. Para ele, os confrontos podem representar tanto o início de uma nova campanha militar quanto uma demonstração de força destinada a pressionar o adversário nas negociações.
A região onde ocorrem os confrontos permanece sob disputa entre Tigray e o estado vizinho de Amhara, uma das principais questões que permaneceram sem solução após o fim da guerra. O agravamento das tensões ocorre poucos dias depois de novas acusações mútuas entre o governo federal e as autoridades de Tigray sobre o descumprimento do Acordo de Pretória.
A guerra travada entre 2020 e 2022 deixou um dos maiores desastres humanitários recentes do continente africano. Estimativas da União Africana apontam que pelo menos 600 mil pessoas morreram durante o conflito, enquanto milhões foram afetadas pelo deslocamento, pela fome e pela destruição da infraestrutura regional.
A comunidade internacional voltou a demonstrar preocupação com a escalada. Estados Unidos, União Europeia e União Africana pediram que ambas as partes evitem novos confrontos e retomem a implementação do Acordo de Pretória, considerado até agora o principal instrumento para impedir uma nova guerra em larga escala no norte da Etiópia.
Lente BNB
O retorno dos combates em Tigray demonstra que o acordo firmado em Pretória interrompeu a guerra, mas não solucionou as disputas políticas e territoriais que alimentaram o conflito. Questões como o controle do oeste de Tigray, o processo de desarmamento e a reintegração política da TPLF continuam abertas quase quatro anos após a assinatura da paz.
A guerra anterior foi uma das mais letais do século XXI e, ao mesmo tempo, uma das menos acompanhadas pela imprensa internacional. Enquanto outros conflitos dominaram o noticiário global, centenas de milhares de africanos morreram em uma guerra que permaneceu distante da atenção internacional.
A pergunta que a Lente BNB insiste em fazer é: quantas vidas negras africanas precisam ser perdidas para que a comunidade internacional se mobilize novamente? A resposta, infelizmente, parece ser a mesma de sempre: muitas, desde que não haja petróleo, gás ou minerais estratégicos em jogo.
Enquanto a Etiópia volta a conviver com o risco de uma nova guerra, milhares de civis já deixam suas casas em busca de segurança, lembrando que os custos dos impasses políticos continuam recaindo, sobretudo, sobre a população.
Fontes consultadas
AFP: Hundreds flee Tigray into Sudan after fighting flares near border (03/08/2026)
Al Jazeera: Fighting breaks out in western Tigray as Ethiopia and TPLF trade blame (01/08/2026)
Africanews: Éthiopie : reprise des combats entre l’armée et les rebelles au Tigré (02/08/2026)
AllAfrica: Tigray Accuses Ethiopia of Launching Fresh Offensive (03/08/2026)
APA News: TPLF accuse Addis Ababa of fresh military offensive (02/08/2026)
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