Africa
Ebola na RDC inicia vacinação e OMS alerta surto fora de controle
A RDC iniciou a vacinação contra Ebola em meio ao surto mais letal de sua história, com 2.786 mortes e 5.794 casos. A OMS alerta que a epidemia ainda não está controlada.
Na quinta-feira (27), a República Democrática do Congo iniciou a vacinação contra o Ebola em Kisangani, capital da província de Tshopo, em uma tentativa de conter o surto mais letal já registrado no país. A campanha começou com a imunização de profissionais de saúde e pessoas que tiveram contato com pacientes, priorizando aqueles que atuam na linha de frente do combate à doença.
Até a última terça-feira (25), o governo congolês registrava 5.794 casos confirmados e 2.786 mortes, com taxa de letalidade de 48%. O surto já atingiu seis províncias, Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul, Tshopo, Haut-Uele e Bas-Uele, e avança em meio à insegurança, ao deslocamento de pessoas, à greve de trabalhadores da saúde e à intensa circulação da população.
A vacina escolhida pelo governo congolês é a Ervebo, desenvolvida contra a cepa Zaire do Ebola. No entanto, o atual surto é causado pela variante Bundibugyo, para a qual não há vacina aprovada. A Organização Mundial da Saúde autorizou 70 mil doses da Ervebo para uso na RDC: 50 mil destinadas a profissionais da linha de frente e 20 mil para um estudo clínico que avaliará a eficácia do imunizante contra a cepa Bundibugyo. “Decidimos usar a vacina Ervebo para proteger primeiro os que estão na linha de frente”, declarou o ministro da Saúde, Roger Kamba.
O diretor de pesquisa do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças, Placide Mbala Kingebeni, afirmou que a campanha também permitirá coletar dados para medir a eficácia do imunizante.
Fim do surto em Uganda, mas risco persiste na RDC
Em contraste com a situação na RDC, a OMS declarou oficialmente o fim do surto de Ebola em Uganda na quarta-feira (26). O país registrou 20 casos confirmados, incluindo 15 importados da RDC, e duas mortes. A declaração ocorreu após 42 dias sem novos casos desde que o último paciente recebeu alta, período correspondente a dois ciclos completos de incubação do vírus.
A diretora de preparação e resposta a emergências da OMS para a região africana, Marie Roseline Belizaire, no entanto, alertou que a doença continua fora de controle na RDC. Segundo ela, a República Centro-Africana é o “país de maior risco”, seguida de perto pelo Sudão do Sul. “As pessoas se deslocam e o vírus se desloca com elas. Portanto, gerir os movimentos, realizar controles nos pontos de entrada e coordenar através das fronteiras é essencial”, afirmou.
Desafios: mortes em comunidades e financiamento insuficiente
Uma das principais dificuldades apontadas pela OMS é o alto número de mortes fora dos centros de tratamento. Na semana de 17 a 22 de agosto, 58,7% dos óbitos ocorreram em comunidades, fora das unidades de isolamento. “Quando as pessoas morrem em casa, elas não são isoladas, seus contatos não são rastreados e enterros inseguros podem gerar novas cadeias de transmissão”, explicou Belizaire.
A OMS também alertou para a falta de financiamento. Dos US$ 518 milhões necessários para combater a doença, apenas US$ 333,2 milhões haviam sido desembolsados até o momento. “O financiamento tardio custa vidas e o financiamento fragmentado deixa lacunas. O Ebola se aproveita de ambas”, afirmaram em comunicado conjunto o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, o diretor regional da OMS para África, Mohamed Yakub Janabi, e o diretor-geral do CDC África, Jean Kaseya.
OMS pede trégua humanitária de seis meses
Diante das dificuldades de acesso a comunidades afetadas por conflitos armados, a OMS fez um apelo por uma trégua humanitária de seis meses para permitir que as equipes de saúde atuem com segurança. Mohamed Yakub Janabi afirmou que “o desafio neste momento não reside no conhecimento nem nas ferramentas”, mas no fato de que parte da população afetada está fora do alcance das equipes sanitárias.
Ele pediu às partes em conflito, incluindo o Exército congolês e o grupo rebelde M23, que pactuem uma trégua. “Quando logramos chegar à população, detemos a transmissão. Quando não podemos, o vírus continua se propagando”, afirmou.
Expansão da capacidade de resposta
Apesar dos desafios, a resposta tem se expandido. A taxa de acompanhamento de contatos subiu de cerca de 40% para aproximadamente 85%. Atualmente, 21 laboratórios operam com capacidade de cerca de 3 mil testes por dia, enquanto 49 centros de tratamento, com mais de 1.300 leitos ativos, estão em funcionamento. A capacidade deve chegar a quase 1.700 leitos até meados de setembro.
O surto, declarado em 15 de maio, já se tornou o maior e mais mortal da história da RDC e o segundo maior globalmente, atrás apenas da epidemia de 2014 a 2016 na África Ocidental. Dados de sequenciamento sugerem que o vírus circulava desde fevereiro, meses antes da confirmação oficial.
A vacinação em Kisangani representa um passo importante, mas a epidemia ainda não está controlada. A combinação de conflitos armados, desconfiança da população, financiamento insuficiente e greve de profissionais de saúde mantém o combate ao Ebola como um desafio que exige resposta coordenada e urgente.
Lente BNB
O surto de Ebola na RDC escancara as desigualdades que atravessam a resposta internacional às crises sanitárias na África Central. A RDC enfrenta a epidemia mais letal de sua história em uma região marcada por décadas de conflitos armados, deslocamento populacional e exploração de recursos.
A ausência de uma vacina específica para a cepa Bundibugyo, a greve de profissionais de saúde por falta de pagamento e a insegurança que impede o acesso a comunidades afetadas expõem as fragilidades da resposta. O fato de 58,7% das mortes ocorrerem fora dos centros de tratamento, em casas e comunidades, revela também a dificuldade de fazer a estrutura de saúde chegar a quem mais precisa.
A declaração do fim do surto em Uganda representa um avanço, mas não encerra o risco regional. Enquanto a RDC continuar enfrentando obstáculos para alcançar comunidades afetadas, rastrear contatos, garantir atendimento e financiar a resposta, o vírus continuará encontrando brechas para avançar.
A pergunta que a Lente BNB insiste em fazer é: quantas vidas congolesas precisam ser perdidas para que uma emergência dessa dimensão receba a urgência necessária? A resposta passa menos pela falta de conhecimento ou de ferramentas e mais pela capacidade de garantir que recursos, equipes e proteção cheguem efetivamente à população.
Fontes consultadas
- UOL: RD Congo inicia vacinação contra Ebola em meio a surto com 2.786 mortes (28/08/2026) — link
- EFE: La OMS anuncia el fin del ébola en Uganda, mientras la RD Congo supera las 2.700 muertes (26/08/2026) — link
- SBT News: Surto de Ebola no Congo ultrapassa 2.700 mortes (26/08/2026) — link
- Consalud: La OMS pide una tregua humanitaria de seis meses (26/08/2026) — link
- Xinhua: Roundup: WHO says DR Congo Ebola outbreak yet to turn corner despite slowdown (27/08/2026) — link
- WHO: The deadliest Bundibugyo Ebola outbreak can be stopped (25/08/2026) — link
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