Justiça
Relatório de Vieira é rejeitado após ignorar facções, bets e chacina
Relatório rejeitado pelo Senado pedia indiciamento de ministros do STF e do PGR, mas não mencionou nenhum integrante do PCC ou Comando Vermelho, não investigou a lavagem de dinheiro via bets e ignorou a chacina policial que matou 121 pessoas no Rio em 2025.
O Senado rejeitou na noite de terça-feira (14) o relatório final da CPI do Crime Organizado, de autoria do senador Alessandro Vieira (MDB-SE), por 6 votos a 4. Apresentado após quatro meses de trabalhos, o documento teve como principal alvo três ministros do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pedindo seu indiciamento por crimes de responsabilidade.
O que o relatório do senador Alessandro Vieira não fez foi justamente o que a CPI deveria fazer. Ele focou exclusivamente no STF e ignorou tudo o que realmente importa.
O senador Alessandro Vieira ignorou a chacina policial que matou 121 pessoas nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, em outubro de 2025. A operação, deflagrada pelo governo do estado então comandado por Cláudio Castro (PL), foi a mais letal da história do Rio, com corpos majoritariamente de jovens negros das periferias. A ONU pediu investigação imediata. O senador não pediu o indiciamento do ex-governador Cláudio Castro. Não pediu o indiciamento de nenhum policial envolvido na operação. Simplesmente ignorou.
O senador Alessandro Vieira ignorou as facções criminosas. O próprio relatório que ele escreveu apontou que o PCC e o Comando Vermelho operam em simbiose com o sistema financeiro formal, usando fundos de investimento, gestoras de ativos e instituições bancárias para lavar bilhões de reais. O Banco Master foi citado como exemplo. Mas o senador não pediu o indiciamento de nenhum integrante do PCC. Não pediu o indiciamento de nenhum integrante do Comando Vermelho. Ignorou.
O senador Alessandro Vieira ignorou as bets. As plataformas de apostas online movimentam bilhões e são apontadas como veículo de lavagem de dinheiro do crime organizado. O relatório mencionou a necessidade de enfrentamento às cadeias econômicas que financiam o crime, mas não apresentou nenhum nome. Nenhum pedido de indiciamento. Ignorou.
A CPI conseguiu identificar 78 organizações criminosas em todo o país. O senador Alessandro Vieira não apresentou nenhum nome de integrante dessas facções para indiciamento. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), criticou o documento justamente por esse desvio de foco: “Do ponto de vista de indiciamento, Fabiano Zettel não foi indiciado, Daniel Vorcaro não foi indiciado, o ex-presidente do Banco Central não foi indiciado”, afirmou o senador.
O senador Rogério Carvalho (PT-SE) também criticou a ausência de indiciamentos de verdadeiros criminosos: “Nós sabemos que as organizações criminosas de âmbito nacional são duas, o Comando Vermelho e o PCC, mas nós temos 78 organizações criminosas no Brasil e nós não avançamos na identificação das outras organizações criminosas e nem apontamos nomes que pudessem ser indiciados por esta CPI”.
A grande mídia tratou a rejeição do relatório do senador Alessandro Vieira como “manobra do governo Lula para blindar aliados”. O que os grandes veículos não dizem é que o relatório foi construído para desviar o foco. Em vez de investigar a chacina, a CPI investigou o STF. Em vez de pedir o indiciamento de policiais, governantes e criminosos, pediu o indiciamento de ministros. Em vez de combater o crime organizado, o senador Alessandro Vieira usou a CPI para atacar adversários políticos.
O senador Alessandro Vieira afirmou, após a derrota, que a rejeição do relatório “só vai adiar a pauta” e que “ela pode não acontecer agora, mas tem data para acontecer”. A “pauta”, para ele, nunca foi a chacina. Nunca foram as facções. Nunca foram as bets. Sempre foi o ataque ao STF.
Fontes consultadas: Agência Brasil: Relatório da CPI do Crime conecta facções com sistema financeiro (14/04/2026), CartaCapital: CPI do Crime Organizado rejeita relatório final (14/04/2026), G1: Operação no Alemão e Penha tem 121 mortos, a mais letal da história (28/10/2025), Agência Senado: CPI do Crime Organizado termina sem relatório final (14/04/2026)
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