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Moçambique cria grupo com EUA após acordo sobre terras raras

Governo moçambicano cria grupo bilateral com os Estados Unidos para ampliar investimentos, logo após acordo que viabiliza exploração de terras raras em Tete, minerais dos quais 85% do processamento global é controlado pela China e que abastecem a indústria de defesa americana.

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O governo de Moçambique anunciou na última terça-feira (3) a criação de um Grupo de Trabalho Bilateral com os Estados Unidos para ampliar investimentos americanos no país. O anúncio ocorre cinco meses após a visita do presidente Daniel Chapo a Washington e, mais significativo, quatro dias depois de a Agência de Comércio e Desenvolvimento dos Estados Unidos (USTDA) assinar acordo para financiar um estudo de viabilidade que abre caminho para a exploração de terras raras na província de Tete.

A sequência dos fatos dispensa maiores explicações: primeiro garante-se o acesso ao recurso estratégico; depois, cria-se a estrutura bilateral para “fortalecer o ambiente de negócios”. O projeto da USTDA é explícito: quer “reduzir os riscos do desenvolvimento de uma nova mina” para produzir terras raras que são “críticas para os interesses comerciais e de defesa da América“.

As terras raras são hoje um dos recursos mais disputados do planeta. Essenciais para a fabricação de celulares, baterias, mísseis e telas de radar, têm seu processamento dominado pela China: 85% de tudo o que é refinado no mundo passa por Pequim. Para Washington, cada nova mina fora do eixo chinês é uma vitória geopolítica.

Moçambique entra nessa equação com reservas significativas desses minerais, além de gás natural e grafite. O país tornou-se peça importante no tabuleiro da disputa entre as duas maiores economias do mundo. O governo Chapo busca equilibrar-se: negocia com Washington, mas mantém relações com Pequim e integra o FOCAC (Fórum de Cooperação China-África).

A pergunta que a história ensina a fazer, no entanto, é: o que sobra para Moçambique?

Desde os tempos coloniais, os recursos naturais do país – primeiro o marfim, depois o algodão, mais tarde o gás – serviram para enriquecer potências estrangeiras enquanto a maioria da população moçambicana, negra e pobre, continuava à margem. O ciclo se repete: estrangeiros chegam, extraem, exportam, e o país segue com índices de desenvolvimento entre os mais baixos do mundo.

O conflito armado em Cabo Delgado, província rica em gás natural, é um lembrete incômodo de que a presença de recursos valiosos não significa necessariamente progresso para quem vive sobre eles. Pelo contrário: muitas vezes atrai violência, deslocamento e mais pobreza.

Enquanto EUA e China disputam quem terá acesso às terras raras de Tete, Moçambique negocia. O desafio – agora como nos últimos cem anos, será garantir que o “ambiente favorável aos negócios” não se traduza em mais um ciclo de extração onde as riquezas saem e a população fica com os escombros.

Fontes: Embaixada dos EUA em Moçambique, AIM News, Câmara de Notícias

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