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Cultura & Arte

Daniela Mercury rompe silêncio e defende mulheres no palco de premiação

Em noite de premiação, Daniela Mercury arriscou sua imagem para ecoar denúncias de violência doméstica contra Edson Gomes que mulheres faziam desde 1999. Sob pressão, recuou. Mas sua valentia já entrou para a história.

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Ela poderia ter subido ao palco, recebido o prêmio, agradecido os fãs e descido. Muitos fariam isso. Mas Daniela Mercury, ao receber o troféu de Música do Carnaval pela canção “É Terreiro” (um manifesto de fé, ancestralidade e resistência feminina), decidiu que seu momento de fala não seria vazio.

“Eu queria pedir a todos os homens que tratem suas mulheres com carinho, com respeito. E ao nosso colega Edson Gomes, que seja mais carinhoso com a esposa”, disse a cantora diante de uma plateia de artistas, jornalistas e autoridades baianas.

Não foi uma fala ensaiada para causar polêmica. Foi o desabafo de quem sabia que, nos bastidores da música baiana, circulavam relatos que ninguém queria oficializar.

Daniela não inventou nada. Em fevereiro deste ano, a deputada estadual Olívia Santana (PCdoB) já havia chamado Edson Gomes de “reacionário” nas redes sociais. Nos comentários, a cantora Laurinha Arantes soltou a frase que poucos tiveram coragem: “A ex que o diga”. Olívia respondeu com um relato seco e doloroso: “Conheço de perto. Minha amiga chegava no trabalho toda machucada. Tivemos que encorajá-la a se separar dele. Isso em 1999”. Laurinha completou: “Agressor de mulheres”.

A imprensa, no entanto, não deu eco àquela troca. A indústria cultural preferiu o silêncio. As denúncias ficaram ali, num comentário perdido do feed de uma deputada. Até que Daniela Mercury pegou o microfone.

A reação foi imediata e violenta. Edson Gomes subiu ao palco, cobrou provas ao vivo e bradou: “Quem é que eu espanco?”. Carlinhos Brown tentou apaziguar sugerindo um dueto, mas ouviu um “Cantar uma zorra!”. Em poucas horas, as redes sociais foram tomadas por uma polarização que pouco ou nada ajudou as mulheres que aguardam justiça.

Menos de 24 horas depois, Daniela recuou. Em nota oficial, afirmou que sua fala era simbólica, dirigida a todos os homens, pediu desculpas a Edson e disse que pretendia conversar com ele em particular. O recuo, lido por alguns como fraqueza, foi na verdade o retrato do que acontece com quem ousa romper o pacto do silêncio: a conta vem, e ela vem cara.

Daniela não é delegada. Não é juíza. Não é testemunha. É uma artista que, tendo um microfone e uma plateia, decidiu não calar. A exigência de “provas imediatas” nunca é feita quando uma mulher em situação de violência chega a uma delegacia. Por que seria diferente no palco de uma premiação?

O público progressista, majoritariamente, abraçou a atitude da cantora. Reconheceu nela a coragem que falta a muitos artistas que preferem o silêncio cúmplice. Mas o sistema (a indústria, a máquina de pressão, o medo de processos e o alinhamento político de Edson com setores da extrema direita) funcionou rápido para isolar Daniela.

Enquanto isso, a ferida de 1999 continua aberta. A amiga de Olívia Santana, que chegava ao trabalho toda machucada, nunca viu seu agressor responsabilizado. Laurinha Arantes, que chamou Edson de “agressor”, foi ignorada. E Daniela Mercury, que tentou romper o muro do silêncio, terminou o dia pedindo desculpas.

A Lente BNB pergunta: se uma artista do porte de Daniela Mercury não pode falar sobre violência doméstica sem ser obrigada a recuar, o que esperar das mulheres anônimas que sofrem caladas dentro de suas casas?

Daniela fez sua parte. O sistema, mais uma vez, fez a dele.

Fontes consultadas:
UOL: Daniela Mercury expõe Edson Gomes ao vivo em premiação (28/04/2026)
G1: Edson Gomes cobra provas de Daniela Mercury (28/04/2026)
Estadão: Daniela Mercury pede desculpas e diz que fala era simbólica (29/04/2026)

 

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