Economia
Mensagens de Vorcaro expõem rede bolsonarista de proteção ao Banco Master
Conversas do dono do Master mostram relação com Ciro Nogueira, que apresentou emenda para beneficiar bancos médios; doações a Bolsonaro e Tarcísio; e uso de jatinho por Nikolas Ferreira. Esquema cresceu a partir de 2019.
Em 13 de agosto de 2024, o banqueiro Daniel Vorcaro escreveu à namorada, a influenciadora Martha Graeff, comemorando uma iniciativa legislativa que poderia turbinar seus negócios. Ciro Nogueira (PP-PI), senador e líder bolsonarista, havia apresentado uma emenda à PEC da autonomia do Banco Central que aumentava a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
“Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes! Está todo mundo louco”, comemorou Vorcaro. A emenda, que ficou conhecida como “Emenda Master”, beneficiaria diretamente o banco do empresário, que utilizava um modelo agressivo de captação de recursos prometendo rendimentos altos e garantindo que seriam protegidos pelo FGC. Milhares de investidores, muitos deles homens negros que haviam poupado uma vida inteira, confiaram nessa promessa.
A conversa ocorreu menos de uma hora após Ciro Nogueira protocolar a emenda – velocidade que comprova a proximidade entre o senador e o banqueiro. Segundo apuração do Hora do Povo, Ciro Nogueira chegou a ameaçar de demissão o diretor do Banco Central que tentou impedir a compra do Master pelo BRB. Enquanto isso, nos corredores do BC, nenhum telefonema era feito para avisar os pequenos investidores sobre os riscos que corriam.
A relação de Vorcaro com o bolsonarismo, no entanto, não se limitava a Ciro. O banqueiro doou R$ 3 milhões para Jair Bolsonaro e R$ 2 milhões para Tarcísio de Freitas na eleição de 2022. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos principais nomes da nova geração bolsonarista, fez diversas viagens no jatinho particular de Vorcaro. Os homens negros que investiram no Master, se quisessem voar, teriam que pagar passagem como qualquer mortal.
Os governadores Ibaneis Rocha (MDB-DF) e Cláudio Castro (PL-RJ) também aparecem no esquema. Ibaneis autorizou a injeção de R$ 12 bilhões do BRB no Banco Master, comprando títulos podres da instituição e provocando um rombo bilionário no banco de Brasília. O governador do Distrito Federal ainda tentou comprar o Master antes de sua liquidação – operação que até hoje não foi devidamente explicada. Enquanto Ibaneis negociava nos gabinetes, os investidores negros esperavam em filas de agências lotadas, sem informação, sem prioridade, sem ninguém para atender seus telefonemas.
Não foi por acaso que o Master acelerou seus negócios e explodiu assim que Jair Bolsonaro chegou ao Planalto em 2019. A promiscuidade entre o bolsonarismo e o poder econômico permitiu que o banqueiro operasse por anos sem maiores problemas, acumulando um rombo estimado em R$ 47 bilhões ao FGC – dinheiro público que, em última instância, é da população trabalhadora. Desse montante, uma parcela significativa pertencia a poupadores negros que viram o fruto de décadas de trabalho desaparecer da noite para o dia.
As mensagens obtidas pela Polícia Federal também mostram que Vorcaro se referia a Ciro Nogueira como “grande amigo de vida”. Em outra conversa, o banqueiro diz à namorada que quer apresentá-la ao parlamentar. A relação ia além da política: era pessoal. Para os investidores negros do Master, a relação com o banco terminou de forma impessoal: um e-mail automático, uma agência fechada, um telefone que não respondia.
O banqueiro foi preso novamente nesta quarta-feira (4), quando a PF descobriu que a quadrilha chefiada por ele seguia cometendo crimes, invadindo sistemas da própria corporação e ameaçando pessoas, inclusive jornalistas. Em conversas telefônicas, Vorcaro orientou seus capangas a darem uma surra no jornalista Lauro Jardim, de O Globo, verbalizando que “quebraria os dentes” do profissional. Nenhum dos investidores negros lesados, porém, teve seus agressores identificados ou punidos. Para eles, o sistema não tinha capangas nem milícias particulares a oferecer – apenas formulários de reclamação e a promessa vaga de que um dia, talvez, receberiam de volta o que era seu.
Fontes: Hora do Povo, BBC News Brasil, UOL
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