Copa do Mundo 2026

Às vésperas da semifinal, Copa registra explosão de ataques racistas contra Mbappé

A menos de 24 horas da semifinal entre França e Espanha, a Fifa registrou 89 mil mensagens abusivas contra Kylian Mbappé na fase de grupos — volume 13 vezes superior ao da Copa de 2022. O caso mais recente ocorreu no domingo (12), quando o ex-presidente do governo espanhol questionou a identidade nacional de jogadores negros da seleção francesa.

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Foto: Kevin C. Cox / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP

A menos de 24 horas da semifinal entre França e Espanha, marcada para esta terça-feira (14) no AT&T Stadium, em Dallas, o clima do torneio é marcado não apenas pela expectativa do confronto, mas pela escalada de ataques racistas contra jogadores negros. Pouco mais de um mês após o início da Copa do Mundo de 2026, a competição já contabiliza ao menos sete casos ou acusações de racismo envolvendo jogadores, árbitros, autoridades, influenciadores e figuras públicas. O principal alvo tem sido o atacante francês Kylian Mbappé, que entra em campo amanhã para decidir uma vaga na final.

A Fifa registrou uma explosão de mensagens abusivas nas redes sociais durante o torneio: foram identificadas 89 mil publicações ofensivas somente na fase de grupos, monitoradas pelo sistema de proteção digital da Fifa, volume 13 vezes superior ao registrado no mesmo período da Copa de 2022. Desse total, 11% das mensagens tinham teor racista, proporção também superior à observada na edição anterior.

O episódio mais recente ocorreu no último domingo (12), às vésperas do duelo entre França e Espanha. Políticos franceses denunciaram um artigo escrito pelo ex-presidente do governo espanhol Mariano Rajoy, que afirmou que a seleção da França “já não tinha franceses”. A declaração foi interpretada por autoridades francesas como um questionamento à nacionalidade de jogadores negros e descendentes de imigrantes, justamente os atletas que amanhã vestirão a camisa azul em busca da final.

Esta é a primeira Copa do Mundo em que a Fifa adota oficialmente o protocolo antirracismo durante as partidas, que prevê interrupção do jogo em caso de manifestações discriminatórias. O gesto utilizado para comunicar uma ocorrência é feito com os braços cruzados em forma de “X”. Apesar das denúncias registradas desde o início da competição, o protocolo ainda não precisou ser acionado durante os jogos — nem mesmo diante da enxurrada digital de 89 mil ataques.

Um dos casos de maior repercussão envolveu a senadora paraguaia Celeste Amarilla, que publicou mensagens ofensivas depois da eliminação do Paraguai. A parlamentar chamou o atacante francês de “arrogante” e “feio” e acrescentou ofensas de motivação racial: “Esse bruto nem aprendeu a escrever. Em vez de leite materno, mamou em cocos, e os seres mais instruídos que ouviu foram chimpanzés”. A manifestação foi amplamente condenada e aumentou a preocupação com a transformação das redes sociais em um espaço de ataques contra atletas negros.

O fenômeno do preconceito digital não se limitou à fase inicial e continuou no início das eliminatórias, atingindo atletas de diversas nacionalidades. Jogadores neerlandeses como Crysencio Summerville, Justin Kluivert e Quinten Timber sofreram insultos racistas após a eliminação da seleção dos Países Baixos contra o Marrocos. O atacante brasileiro Vinicius Jr. foi comparado a um macaco em postagens online antes do confronto entre Brasil e Japão.

Às vésperas da semifinal entre França e Espanha, o crescimento dos ataques racistas reforça um dos principais desafios enfrentados pela Fifa nesta Copa do Mundo. Enquanto a entidade amplia mecanismos de monitoramento e combate à discriminação, atletas negros seguem convivendo com um ambiente de hostilidade dentro e, principalmente, fora dos gramados.

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O racismo no futebol não é um fenômeno novo — mas a escala dos ataques em 2026 revela como as redes sociais amplificaram o ódio contra atletas negros. 89 mil mensagens abusivas na fase de grupos, 13 vezes mais do que em 2022. O número não é apenas estatística: é a prova de que o racismo digital se tornou uma arma de destruição em massa contra corpos negros.

Mbappé, filho de pai camaronês e mãe argelina, é o alvo principal de uma campanha que questiona sua nacionalidade e sua humanidade. A fala de Mariano Rajoy — “a França já não tinha franceses” — ecoa um discurso que atravessa décadas: o de que jogadores negros não são “verdadeiramente” franceses, mesmo quando vestem a camisa da seleção e decidem jogos. O mesmo argumento foi usado contra a seleção francesa em 2022 e 2018. Não é novo. É estrutural.

A Fifa, que implementou um protocolo antirracismo inédito nesta Copa, ainda não o acionou dentro de campo. Mas os dados mostram que, fora dele, o racismo está mais vivo do que nunca. E amanhã, quando a bola rolar em Dallas, a pergunta que fica no ar é: o que será preciso para que o racismo seja tratado como o que ele é — um crime estrutural — e não como um “problema de alguns torcedores”?

Compreender a escala dos ataques contra Mbappé às vésperas da semifinal ajuda a explicar por que o futebol, mesmo sendo o esporte mais global do mundo, ainda reproduz as mesmas hierarquias raciais que a sociedade insiste em manter. A diáspora africana está no centro do jogo — mas ainda precisa lutar para ser reconhecida como protagonista, dentro e fora de campo. O combate ao racismo no futebol dependerá não apenas de protocolos, mas da responsabilização efetiva de quem transforma o esporte em instrumento de discriminação.

Fontes consultadas

O Globo: Copa do Mundo contabiliza ao menos 7 casos ou acusações de racismo (13/07/2026)
Brasil 247: Mundial de 2026 acumula sete casos e acusações de racismo (13/07/2026)
Aventuras na História: Fifa denuncia explosão de ataques racistas na Copa (01/07/2026)

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