Copa do Mundo 2026
Cabo Verde desafia gigantes, empata com Uruguai e mantém sonho vivo na Copa
Ontem (21 de junho), Cabo Verde arrancou um empate de 2 a 2 com o Uruguai em Miami. A campanha histórica dos “Tubarões Azuis” incluiu um 0 a 0 contra a Espanha, mas foi ofuscada pela política de vistos de Trump.
Cabo Verde escreveu mais um capítulo histórico em sua primeira participação em Copas do Mundo. Diante do bicampeão mundial Uruguai, no Hard Rock Stadium, em Miami, os “Tubarões Azuis” arrancaram um empate emocionante por 2 a 2, mantendo vivas as chances de uma classificação inédita para a próxima fase.
A partida foi eletrizante. Aos 21 minutos do primeiro tempo, Kevin Pina cobrou uma falta com maestria e marcou o primeiro gol da história de Cabo Verde em Copas do Mundo. O Uruguai, porém, mostrou sua força e virou o jogo ainda no primeiro tempo, com gols de Maxi Araújo e Agustín Canobbio. Na segunda etapa, a determinação cabo-verdiana falou mais alto. O atacante Hélio Varela, dois minutos após entrar em campo, aproveitou um erro da defesa uruguaia e empatou a partida.
O feito é ainda mais impressionante quando se considera que Cabo Verde é a segunda menor nação a disputar uma Copa do Mundo, atrás apenas da Islândia. Mas a trajetória dos “Tubarões Azuis” em solo americano vai além dos gramados.
O goleiro Vozinha, de 40 anos, tornou-se a figura central não apenas pelas defesas que garantiram o empate contra a Espanha, mas pela história de superação que carrega. Após a partida contra a Espanha, o goleiro foi às lágrimas — não apenas pela conquista, mas porque sua mãe, Ana Candida Evora, não pôde estar presente. “Minha mãe não pôde vir por causa do visto”, explicou ele, emocionado.
O problema era uma política implementada pelo governo Trump que exige que cidadãos de 50 países, incluindo Cabo Verde, paguem uma caução de até US$ 15 mil (cerca de R$ 82 mil) para obter um visto de entrada nos Estados Unidos. Para uma família cabo-verdiana comum, esse valor é proibitivo. Para a mãe de Vozinha, era uma barreira intransponível.
O caso rapidamente ganhou repercussão internacional. A história de Vozinha e sua mãe chegou a Washington, e o líder da minoria democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, intercedeu junto ao secretário de Estado, Marco Rubio, para resolver a situação. As taxas foram dispensadas e os arranjos de viagem foram feitos para que Ana Candida pudesse chegar a Miami a tempo de ver o filho jogar contra o Uruguai.
“Chorei porque cresci com meus avós e, infelizmente, eles faleceram há alguns anos. Eles fizeram tudo por mim e hoje não estavam aqui. Minha mãe também não pôde vir por causa do visto”, disse Vozinha após a partida contra a Espanha.
A política de vistos de Trump não afetou apenas Vozinha. O Irã teve que realocar sua base de treinamento para Tijuana, no México, por preocupações de que seus membros não seriam autorizados a entrar nos Estados Unidos, e 15 membros da equipe de apoio tiveram seus vistos negados. Um árbitro somali, considerado um dos melhores da África, foi impedido de entrar no país apesar de ter um visto, devido a “preocupações de verificação” não especificadas.
Democratas criticaram duramente a abordagem do governo Trump durante a Copa. O presidente do Caucus Democrata da Câmara, Pete Aguilar, afirmou que as políticas anti-imigração de Trump estavam prejudicando os EUA durante a Copa e que muitos turistas em potencial escolheram visitar o Canadá ou o México em vez disso.
Enquanto isso, em campo, Cabo Verde continua escrevendo sua história. Contra o Uruguai, a seleção não apenas marcou seu primeiro gol na história das Copas — um belo chute de falta de Kevin Pina — como também mostrou resiliência ao buscar o empate após estar perdendo por 2 a 1. O substituto Hélio Varela, três minutos após entrar em campo, aproveitou um erro da defesa uruguaia e empatou o jogo.
“Eu sonhava com isso, mas nunca imaginei que aconteceria dessa forma. Marcar meu primeiro gol pela seleção nacional na minha estreia na Copa é incrível. Não tenho palavras”, disse Varela após a partida.
O técnico Bubista destacou a determinação da equipe: “Quero parabenizar a equipe e todo o nosso povo pela forma como jogamos, com nossos corações. Terminamos a partida com muita dificuldade, com muitos jogadores sofrendo cãibras. Mas nosso time foi corajoso durante todo o tempo e sempre procurou vencer o jogo”.
Agora, Cabo Verde está a uma vitória da classificação para a próxima fase. Com dois pontos em dois jogos, uma vitória contra a Arábia Saudita na última rodada garantiria uma vaga histórica no mata-mata. Para um país que nunca havia sequer marcado um gol em Copas até esta semana, a mera possibilidade já é um feito extraordinário.
A Lente BNB revela: A história de Cabo Verde na Copa do Mundo é um microcosmo das contradições do mundo contemporâneo. De um lado, um país africano de 500 mil habitantes desafia as potências do futebol em campo. Do outro, as barreiras impostas por uma política de imigração que trata cidadãos de países em desenvolvimento como suspeitos, mesmo quando vêm celebrar o esporte. A saga de Vozinha e sua mãe expõe o racismo estrutural que ainda define quem pode ou não atravessar fronteiras. Enquanto os Tubarões Azuis encantam o mundo com seu futebol, a diáspora cabo-verdiana e africana segue lutando por um direito básico: o de ver seus heróis de perto.
Fontes consultadas
The Guardian: Cape Verde hold Uruguay to 2-2 draw to keep World Cup dream alive (21/06/2026)
BBC Sport: Cape Verde 2-2 Uruguay: Historic result keeps debutants in contention (21/06/2026)
AP News: Cape Verde’s Vozinha: ‘My mother couldn’t come because of Trump’s visa policy’ (21/06/2026)
ESPN: Cape Verde makes history with draw against Uruguay (21/06/2026)
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