Copa do Mundo 2026

Três telefonemas de Trump anulam cartão vermelho e expõem submissão da FIFA

Em três telefonemas, Trump convenceu a FIFA a suspender o cartão vermelho de Balogun, liberando o atacante dos EUA para enfrentar a Bélgica hoje (6). A decisão expôs a fragilidade das regras diante do poder político, com o presidente americano classificando o árbitro brasileiro Raphael Claus como “suspeito”.

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Imagem crédito: Getty Images

Três telefonemas. Foi o que bastou para que a FIFA, a entidade máxima do futebol mundial, liberasse o atacante norte-americano Folarin Balogun para enfrentar a Bélgica hoje (6), nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026.

A história começou em 1º de julho, quando Balogun foi expulso com cartão vermelho direto na vitória dos Estados Unidos sobre a Bósnia por 2 a 0, após pisar no tornozelo do defensor Tarik Muharemovic. Pela regra geral, o cartão vermelho implica suspensão automática de uma partida. Balogun, artilheiro dos EUA na Copa com três gols, estava fora do confronto contra a Bélgica. Quem aplicou o cartão foi o árbitro brasileiro Raphael Claus, de 46 anos, que apitava sua segunda Copa do Mundo.

Mas Trump não aceitou.

A ofensiva da Casa Branca contra o árbitro brasileiro

Antes mesmo dos telefonemas, a Casa Branca já havia iniciado uma ofensiva política e jurídica para tentar reverter a suspensão de Balogun. Segundo reportagens do The Athletic e do The New York Times, integrantes da administração Trump elaboraram um documento com críticas à atuação do árbitro brasileiro Raphael Claus, incluindo alegações não comprovadas sobre sua atuação em partidas anteriores. De acordo com os dois veículos, esse material foi utilizado pela Federação dos Estados Unidos como parte da argumentação apresentada à FIFA em defesa da liberação do atacante.

O presidente norte-americano fez três ligações para Gianni Infantino, presidente da FIFA, desde o dia da expulsão. No primeiro contato, ainda em 1º de julho, Trump teria pedido a revisão da decisão. No domingo (5), a FIFA anunciou a reviravolta: a suspensão de Balogun seria “suspensa por um período probatório de um ano”. O atacante estava liberado para jogar.

A justificativa da FIFA foi baseada no Artigo 27 de seu Código Disciplinar, utilizado para suspender a execução da punição. A medida, porém, foi recebida com críticas por abrir uma exceção considerada inédita durante uma Copa do Mundo. Era a primeira vez desde 1962 que a FIFA permitia que um jogador suspenso atuasse em uma partida do torneio.

O episódio expõe a submissão da entidade máxima do futebol a uma potência política. A UEFA, entidade que rege o futebol europeu, afirmou que a decisão “ultrapassou uma linha vermelha”.

Em nota, a entidade europeia declarou: “Quando a certeza das regras não é mais garantida por seus guardiões, a integridade do jogo está em jogo.”

Trump chama árbitro brasileiro de ‘suspeito’

Em entrevista nesta segunda-feira (6), Trump foi além e atacou diretamente a credibilidade do árbitro brasileiro. “Esse árbitro é um pouco suspeito. Se você verificar o passado dele… Eu não quero dizer isso, porque não gosto de criar polêmica, mas muito suspeito”, afirmou o presidente. “Ele fez uma marcação que ninguém conseguiu acreditar”. Trump ainda disse que Balogun “não fez nada de errado” e chamou a decisão de “horrível”.

A fala de Trump retoma as acusações não comprovadas mencionadas no documento citado pelas reportagens do The Athletic e do The New York Times, que sugeriam, sem apresentar provas, irregularidades na atuação de Raphael Claus. Até o momento, não há condenação ou acusação formal contra o árbitro relacionada à manipulação de resultados.

Em resposta, a CBF divulgou nota defendendo a integridade de Raphael Claus: “Não há nada em seu histórico que o desabone ou que dê margem a qualquer suspeita. Ele é um profissional exemplar.”

O contraste com a África: barrados na porta dos EUA

Enquanto Trump usava seu poder para garantir que um jogador americano entrasse em campo, cidadãos de países africanos enfrentavam uma realidade completamente diferente para entrar nos Estados Unidos.

O goleiro Vozinha, herói de Cabo Verde na Copa, revelou após o empate histórico contra a Espanha que sua mãe não pôde assistir à partida: “Ela não conseguiu estar aqui por causa do visto… do dinheiro que temos de pagar pelo visto.”

Cabo Verde está entre os países cujos cidadãos, segundo regras da administração Trump, precisam apresentar garantias financeiras que podem chegar a US$ 15 mil (cerca de R$ 82,5 mil) para determinados processos de entrada no país.

A mãe de Vozinha só conseguiu viajar após uma intervenção do Departamento de Estado dos Estados Unidos e do líder da minoria democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, que afirmou que todas as taxas foram dispensadas. O que para um jogador americano foi resolvido com três telefonemas do presidente da República, para a mãe de um jogador cabo-verdiano exigiu mobilização diplomática e repercussão internacional.

O caso mais emblemático, no entanto, é o de Michel Kuka Mboladinga, conhecido como “Lumumba Vea”, torcedor símbolo da República Democrática do Congo.

Famoso por permanecer imóvel durante os jogos em homenagem ao primeiro-ministro Patrice Lumumba, assassinado em 1961, Mboladinga teve o visto negado pelos Estados Unidos e não conseguiu acompanhar a seleção congolesa na partida decisiva contra o Uzbequistão, em Atlanta.

A embaixadora congolesa em Washington, Kapinga Yvette Ngandu, afirmou esperar que ele conseguisse autorização caso a RDC avançasse na competição. Sua viagem já havia sido dificultada anteriormente por restrições impostas a viajantes congoleses durante o surto de Ebola.

As críticas internacionais

A Bélgica, adversária dos Estados Unidos nas oitavas de final, reagiu com indignação.

O técnico Rudi Garcia ironizou: “Eu não sabia que, no escritório da FIFA, 5 de julho é o primeiro de abril.”

A Federação Belga afirmou que a decisão contradiz as próprias regras da FIFA e anunciou que tentaria recorrer. O pedido foi rejeitado sob o argumento de que a entidade não possuía legitimidade processual para contestar a medida.

Do lado norte-americano, o técnico Mauricio Pochettino comemorou a liberação do atacante.

Christian Pulisic resumiu a reação do elenco: “No começo, você pensa: ‘Sério, isso é real?’ E então: ‘Ah, esta é uma ótima notícia’.”

O próprio Donald Trump celebrou nas redes sociais: “Obrigado à FIFA por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça.”

Até o ex-presidente da FIFA, Sepp Blatter, criticou duramente a decisão: “Cartões vermelhos não são revertidos por telefonemas políticos. São revertidos por regras, evidências e órgãos independentes.” E completou: “Se um presidente dos EUA intervém com o presidente da FIFA — e um jogador é subitamente liberado antes de uma partida de mata-mata da Copa — a pergunta é inevitável: Quo vadis, FIFA? O futebol nunca deve se tornar um playground para o poder político.”

Gianni Infantino afirmou que explicou a Trump que o caso seria decidido pelos órgãos competentes. Mas a cronologia dos fatos permanece no centro da controvérsia: três telefonemas do presidente norte-americano, a elaboração de um documento com críticas ao árbitro brasileiro e a suspensão de uma punição que, pelas regras gerais da competição, afastaria Balogun da partida decisiva.

O que fica

A FIFA, que se apresenta como guardiã da integridade do futebol, viu sua credibilidade ser colocada em xeque após uma decisão que provocou críticas de dirigentes, federações e ex-integrantes da própria entidade. Enquanto um jogador norte-americano foi beneficiado por uma medida excepcional às vésperas de um jogo eliminatório — precedida pela elaboração de um documento da Casa Branca com críticas à atuação do árbitro brasileiro —, familiares de atletas e torcedores africanos continuaram enfrentando barreiras para entrar no país-sede da Copa.

O contraste transformou um episódio disciplinar em um debate muito mais amplo sobre poder político, geopolítica e igualdade de tratamento dentro da principal competição do futebol mundial.

Atualização (06/07 – 23h45) — A polêmica envolvendo a liberação de Folarin Balogun não foi suficiente para evitar a eliminação dos Estados Unidos. Mesmo com o atacante em campo após a suspensão inédita de seu cartão vermelho pela FIFA, a seleção norte-americana foi goleada pela Bélgica por 4 a 1 e está eliminada da Copa do Mundo de 2026. A decisão da FIFA, tomada após a intervenção do presidente Donald Trump, segue sendo alvo de críticas de dirigentes, ex-integrantes da entidade e federações europeias, que questionam a independência dos órgãos disciplinares da competição.


Fontes consultadas

BBC Sport: Trump confirms he asked Fifa to review Balogun ban (06/07/2026)
AP News: FIFA lifts Balogun’s red card suspension after Trump calls Infantino (05/07/2026)
The Hill: Trump rips ‘a little bit suspect’ FIFA referee (06/07/2026)
Estadão: Casa Branca fez dossiê e levou acusação sem evidências contra Claus (06/07/2026)
CNN Brasil: Mãe de Vozinha consegue visto após intervenção (17/06/2026)
The Tribune: DR Congo superfan Michel Kuka Mboladinga denied US visa (28/06/2026)

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