Copa do Mundo 2026

Yamal e o racismo argentino na final da Copa, um duelo além do futebol

Lamine Yamal, filho de marroquino e guineense, representa a Espanha diversa na final contra a Argentina. Já alvo de racismo, o jovem de 19 anos tem ao lado Keyne, o irmão de 3 anos que virou xodó. A torcida argentina carrega o peso de cânticos discriminatórios que marcaram a Copa de 2022.

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Neste domingo (19), às 16h (horário de Brasília), Argentina e Espanha entram em campo no MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey, para decidir o título da Copa do Mundo de 2026. O estádio, casa do New York Giants e do New York Jets, tem capacidade para cerca de 82.500 torcedores e recebe o jogo de número 104 da primeira Copa disputada por 48 seleções. A transmissão será feita pela CazéTV, TV Globo, Sportv e SBT. De um lado, a Argentina de Lionel Messi, em busca do tetracampeonato. Do outro, a Espanha de Lamine Yamal — um jovem de 19 anos que carrega nas costas não apenas a esperança de um país, mas a história de uma família imigrante e a luta contra o racismo que atravessa o futebol mundial.

Yamal Nasraoui Ebana nasceu em 13 de julho de 2007, em Esplugues de Llobregat, nos arredores de Barcelona. É filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial, e cresceu em Rocafonda, um conjunto habitacional de Mataró onde a cozinha e o quarto eram “praticamente o mesmo espaço”. O número “304”, que o jogador exibe em comemorações, é uma homenagem ao código postal do bairro onde foi criado.

A história de Yamal, no entanto, não é feita apenas de superação econômica. Ao seu lado, nas arquibancadas e nas redes sociais, está Keyne, seu meio-irmão mais novo, nascido em setembro de 2022. Com apenas 3 anos de idade, Keyne se tornou um dos personagens mais queridos da seleção espanhola, viralizando com suas caretas, beijos e comemorações espontâneas. A imprensa o apelidou de “torcedor número 1” e “mascote da sorte”. Yamal já declarou publicamente que Keyne é “tudo para ele” e que o considera “como um filho”.

Mas a trajetória de Yamal também foi marcada por episódios de racismo e islamofobia. Muçulmano, ele já denunciou publicamente cânticos islamofóbicos durante um amistoso entre Espanha e Egito, quando parte da torcida entoou “Quem não pula é muçulmano”. O Observatório Espanhol contra o Racismo e Xenofobia revelou que Yamal recebeu 60% dos mais de 34 mil conteúdos racistas analisados na Espanha.

Se a trajetória de Yamal é marcada pela resistência, o mesmo não se pode dizer do ambiente que cerca a seleção argentina. A Argentina chega à final com uma imagem manchada por episódios recorrentes de intolerância. A lembrança dos cânticos de deboche contra jogadores franceses de origem africana na final da Copa de 2022 ainda ecoa. Durante o torneio de 2026, a Fifa condenou ofensas racistas dirigidas ao influenciador IShowSpeed por um torcedor argentino, e torcedores argentinos foram flagrados insultando egípcios com termos islamofóbicos.

A ausência de uma lei que puna ofensas raciais e a construção histórica de uma identidade nacional que se pretende “branca” — um mito fundador que apaga as raízes indígenas e africanas do país — contribuem para um ambiente em que o racismo é naturalizado. O último jogador negro a vestir a camisa da seleção principal da Argentina foi o goleiro Héctor Baley, em 1982.

Lente BNB

A final da Copa do Mundo entre Argentina e Espanha coloca em confronto não apenas dois estilos de futebol, mas duas narrativas sobre identidade, pertencimento e racismo no esporte. Lamine Yamal, filho de imigrantes africanos, é o rosto de uma Espanha que, ainda que imperfeitamente, tenta abrir espaço para a diversidade. Ao seu lado, Keyne — o irmão de 3 anos que roubou a cena nas arquibancadas — lembra que a história de Yamal é também uma história de família, de afeto e de resistência cotidiana.

A Argentina, por sua vez, chega à decisão com o peso de uma história de apagamento e intolerância que seus torcedores e jogadores insistem em repetir. Yamal já teve que defender, em coletivas de imprensa, seu direito de ser espanhol. Enquanto enfrenta insultos racistas dentro de seu próprio país, ele se prepara para jogar uma final contra uma seleção cuja torcida tem um histórico documentado de cânticos xenófobos e islamofóbicos. O silêncio do futebol argentino e europeu diante desses episódios é tão revelador quanto os gritos nas arquibancadas. A pergunta que a Lente BNB insiste em fazer é: o que será lembrado quando o apito final soar — o talento em campo ou a indiferença diante do racismo estrutural que ambos os países ainda alimentam?

Fontes consultadas

G1: Lamine Yamal, astro da Espanha na final da Copa, é filho de imigrantes, luta contra racismo e tem irmão que virou xodó nas redes (19/07/2026)
BBC News Brasil: Espanha x Argentina: data, horário, estádio e tudo sobre o jogo da final da Copa do Mundo 2026 (19/07/2026)
CNN Brasil: Espanha x Argentina: horário e onde assistir à final da Copa do Mundo (19/07/2026)
O Globo: Copa do Mundo 2026: final tem prorrogação? Que horas será? (19/07/2026)
Revista Fórum: Argentina vira alvo na América Latina antes de final (18/07/2026)
Portal AZ: Rejeição à Argentina cresce e amplia apoio à Espanha (18/07/2026)

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