Geopolitica

Aliança inédita entre jihadistas e separatistas toma cidades no Mali e abala junta militar

Ataques coordenados do JNIM e do FLA em Bamako, Kidal e outras cidades mataram o ministro da Defesa do Mali. Separatistas tuaregues retomaram controle do norte de Kidal. Governo declara luto e toque de recolher.

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Os grupos JNIM (Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin), braço do Al-Qaeda no Sahel, e FLA (Frente de Libertação do Azawad), a mais importante coalizão de separatistas tuaregues, lançaram no último sábado (25) uma série de ataques coordenados em várias cidades do Mali, incluindo a capital, Bamako, em uma das maiores operações combinadas já vistas no país. A ação, que se estendeu até domingo (26), resultou na morte do ministro da Defesa, general Sadio Camara, e na retomada do controle do norte da cidade de Kidal pelos separatistas.

Com uma sincronização inédita, os ataques atingiram posições estratégicas do governo militar, incluindo a principal base em Kati, nos arredores de Bamako, além das cidades de Gao, Mopti e Sévaré. As Forças Armadas do Mali disseram ter a situação sob controle, mas reconheceram a continuidade dos combates e afirmaram ter abatido “várias centenas” de atacantes — informação que não pôde ser confirmada de forma independente.

O governo do Coronel Assimi Goïta declarou dois dias de luto nacional pela morte do ministro e impôs um toque de recolher noturno em Bamako das 21h às 6h. Imagens de combatentes controlando Kidal foram divulgadas nas redes sociais. Os grupos JNIM e FLA reivindicaram publicamente a autoria das ações coordenadas, e fontes da BBC Afrique destacaram que “as linhas de fratura tradicionais parecem estar desaparecendo em favor de convergências táticas”.

A aliança entre jihadistas e separatistas era considerada improvável até então. Os tuaregues do FLA, que lutam por um estado independente no norte do Mali, sempre se distanciaram dos grupos radicais islâmicos. O que mudou foi a retirada gradual das forças internacionais (ONU e França) e o fortalecimento do Corpo África, sucessor do Grupo Wagner, que apoia a junta de Goïta. Diante de um inimigo comum — o governo central apoiado por mercenários russos —, antigos rivais descobriram que unir forças amplia o dano.

A escalada coloca em xeque a permanência da própria junta militar no poder. Desde o golpe de 2020, Goïta prometeu derrotar os insurgentes e pacificar o país. Dois anos depois, a capital é atacada, um ministro é morto e cidades estratégicas são tomadas. A população civil negra do Sahel, mais uma vez, paga o preço mais alto: deslocamentos, bombardeios e o silêncio de uma comunidade internacional que só se mobiliza quando o petróleo ou o gás estão em jogo.

Enquanto isso, o Sahel se torna um dos tabuleiros mais voláteis do mundo. A aliança JNIM-FLA não é apenas uma tática militar — é um sinal de que as velhas regras do conflito foram reescritas. E o Ocidente, que insiste em tratar a região como um problema “local” ou “tribal”, segue olhando para o lugar errado.


Fontes consultadas:
BBC News: Armed groups launch coordinated attacks across Mali (25/04/2026)
BBC Afrique: Sadio Camara, le ministre malien de la Défense, tué dans l’attaque de sa résidence (26/04/2026)
France 24: Alliance JNIM-FLA, junte fragilisée, départ de mercenaires russes : que se passe-t-il au Mali? (27/04/2026)
DW: Mali: Sadio Camara a été tué lors des attaques JNIM/FLA (26/04/2026)
Jeune Afrique: Attaques au Mali: Goïta doit s’adresser à la nation, le Jnim annonce un “blocus” de Bamako (27/04/2026)
AP News: Mali separatists confirm they joined Islamic militants in coordinated attacks (26/04/2026)

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