Africa do Sul
Ultimato xenófobo na África do Sul: milhares fogem e temem violência
Milhares de migrantes africanos deixam a África do Sul após grupos anti-imigração darem prazo até 30 de junho para estrangeiros deixarem o país. Governo rejeita ultimato, mas tensão persiste.
Na véspera do prazo de 30 de junho, milhares de migrantes africanos deixaram a África do Sul às pressas, temendo uma nova onda de violência xenófoba. Grupos anti-imigração ligados aos movimentos March and March e Operation Dudula lançaram um ultimato para que estrangeiros em situação migratória irregular deixassem o país até esta terça-feira.
Rodoviárias que operam rotas para países vizinhos registraram aumento no fluxo de passageiros, enquanto aeroportos também tiveram maior movimento de estrangeiros tentando deixar o país. Em diversos pontos, filas de ônibus e táxis se formaram ao longo do dia, refletindo o clima de medo e incerteza vivido por milhares de famílias.
John Mazibuko, um zimbabuano que trabalhou como encanador na África do Sul por três anos, afirmou à agência Anadolu: “Não há empregos em casa no Zimbábue. Aqui na África do Sul eu estava conseguindo sobreviver, mas não tenho escolha a não ser partir”. Um malauiano identificado apenas como Francis resumiu o sentimento de muitos migrantes: “É melhor sair do país vivo do que sair em um caixão”.
O governo sul-africano rejeitou o ultimato. Em sua coluna semanal, o presidente Cyril Ramaphosa declarou: “A África do Sul é uma república constitucional governada pelo Estado de Direito. O exercício de direitos por qualquer cidadão em uma democracia constitucional não pode ser determinado por intimidação, ameaças ou ultimatos”. As forças de segurança foram reforçadas, mas a promessa de proteção não foi suficiente para dissipar o temor entre comunidades migrantes.
Os relatos de violência, porém, já vinham se acumulando nas semanas anteriores. Refugiados e migrantes denunciaram episódios recorrentes de assédio, intimidação, extorsão e fechamento forçado de estabelecimentos comerciais. Em diferentes bairros, grupos de vigilantes percorreram comunidades de migrantes exigindo que estrangeiros deixassem o país e encerrassem suas atividades econômicas.
Ismail Phiri, trabalhador de 26 anos em Joanesburgo, descreveu a situação: “Estamos sendo caçados como animais selvagens. Não há mais humanidade. Não podemos mais nos mover livremente porque você pode encontrar os vigilantes e ser agredido”.
Hashim Noor, refugiado sudanês que fugiu da guerra em Cartum há dois anos, também relatou à Anadolu: “Fugi do conflito no meu país, Sudão, esperando encontrar paz aqui. Mas me encontrei novamente na mesma situação”. Segundo ele, seus filhos deixaram de frequentar a escola por medo de ataques durante o trajeto.
Enquanto o clima de insegurança se intensifica, países como Moçambique, Malawi, Zimbábue, Nigéria e Gana iniciaram operações para auxiliar o retorno de seus cidadãos. Autoridades sul-africanas também ampliaram operações de fiscalização migratória e deportação durante o período de tensão.
A África do Sul possui um histórico de violência xenófoba. O episódio mais grave ocorreu em 2008, quando ataques iniciados na township de Alexandra se espalharam pelo país, deixando 62 mortos. Novas ondas de violência em 2015 e 2019 provocaram dezenas de mortes, centenas de estabelecimentos saqueados e milhares de deslocados. Dados do projeto Xenowatch indicam que ataques xenófobos continuam sendo registrados no país.
A Lente BNB: O ultimato de 30 de junho evidencia como crises econômicas, desemprego e fragilidades institucionais podem transformar migrantes africanos em alvo da insatisfação social. Em um continente cujas fronteiras nacionais foram desenhadas durante o período colonial, cidadãos de países como Moçambique, Zimbábue, Malawi, Nigéria e República Democrática do Congo passam a ser tratados como estrangeiros indesejáveis por populações que compartilham histórias de colonização, deslocamentos e exclusão. Mais do que um episódio isolado, a escalada de intimidações e ataques revela os limites dos mecanismos regionais de proteção e reacende o debate sobre a livre circulação de pessoas, a integração africana e o papel da União Africana diante de crises que atingem diretamente populações negras no próprio continente.
Fontes consultadas
Anadolu Ajansı: ‘Looming massacre’: South Africa on edge as anti-immigrant deadline approaches (29/06/2026)
Anadolu Ajansı: Thousands of African migrants rush to leave South Africa ahead of June 30 anti-immigrants ‘deadline’ (30/06/2026)
BBC News: South African anti-migrant protesters should march peacefully, Cyril Ramaphosa warns (29/06/2026)
GhanaWeb: Thousands flee South Africa ahead of unofficial June 30 deadline (30/06/2026)
BlackNews BRASIL – Um ecossistema de Jornalismo Negro e Independente.