África em Conflito

Conflito entre Exército da RDC e M23 deixa 54 civis mortos

Pelo menos 54 civis, incluindo mulheres grávidas, crianças e estudantes, morreram em combates entre o Exército congolês e o M23 no território de Fizi, em Kivu do Sul. A comunidade internacional é acionada.

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Imagem crédito: vaticannews

Pelo menos 54 civis morreram durante o fim de semana em decorrência de intensos combates entre o Exército da República Democrática do Congo (FARDC) e o grupo rebelde Movimento 23 de Março (M23), que o governo congolês acusa de receber apoio de Ruanda — acusação reiteradamente rejeitada por Kigali. Os confrontos ocorreram no território de Fizi, na província de Kivu do Sul. As vítimas incluem mulheres grávidas, estudantes, crianças e deslocados internos, segundo o administrador civil do território, Samy Kalonji Badibanga.

Os combates, que se intensificaram nos últimos dias, também provocaram a destruição de estradas, centros de saúde, rebanhos e áreas de cultivo. A deterioração da segurança desencadeou um deslocamento massivo da população para aldeias vizinhas, incluindo Mukera, Lumania, Kichula, Kananda e Barsebele, além da cidade de Baraka.

“Fazemos um apelo à comunidade internacional para que compreenda que a situação que a população de Kivu do Sul enfrenta, em geral, e a do território de Fizi, em particular, é dramática”, declarou Kalonji Badibanga.

O conflito no leste da RDC se agravou em janeiro de 2025, quando o M23 tomou o controle de Goma, capital da província de Kivu do Norte, e, semanas depois, de Bukavu, capital de Kivu do Sul. A República Democrática do Congo acusa Ruanda de apoiar o M23 com tropas e equipamentos militares. O governo ruandês nega reiteradamente essa acusação. Apesar de um acordo de paz mediado pelos Estados Unidos e pelo Catar, as duas partes continuam trocando acusações de violação do cessar-fogo.

A continuidade dos confrontos reforça a fragilidade do processo de paz e amplia a crise humanitária no leste da República Democrática do Congo, onde milhões de pessoas permanecem deslocadas em razão do conflito.

Lente BNB

Perspectiva racial/social: Os 54 mortos civis no território de Fizi são majoritariamente negros congoleses — mulheres grávidas, crianças, estudantes e deslocados internos. A violência que atinge o leste da RDC não escolhe alvos militares: atinge famílias inteiras, comunidades e gerações. A invisibilidade dessas vítimas nos grandes veículos internacionais é um reflexo do racismo estrutural que ainda define quais vidas merecem ser noticiadas.

Leitura institucional: O acordo de paz mediado por Estados Unidos e Catar, que deveria cessar os confrontos, é ignorado por ambas as partes. A MONUSCO, com mais de 14 mil militares, mostra-se incapaz de proteger a população civil. O Estado congolês, fragilizado e sem presença efetiva em áreas periféricas, não consegue garantir segurança básica aos seus cidadãos. A ausência de responsabilização internacional por violações de direitos humanos consolida um ciclo de impunidade na região.

Contexto histórico: A guerra no leste da RDC é uma herança do genocídio de Ruanda em 1994, da Primeira e Segunda Guerras do Congo (1996–2003) e da exploração sistemática de minerais estratégicos (coltan, estanho, tungstênio). O M23, formado em 2012 por ex-combatentes que se sentiam traídos pelo governo congolês, é mais um capítulo de décadas de conflito que já matou milhões de pessoas no país.

Estrutura de poder: O conflito em Fizi beneficia grupos armados como o M23, que ampliam seu controle territorial e acesso a recursos minerais, e potências estrangeiras (como a Rússia e os EUA) que mantêm influência na região através de acordos econômicos e militares. Quem perde, invariavelmente, é a população civil negra, que vê suas casas destruídas, suas famílias desmembradas e seu futuro incerto.

Perspectiva geopolítica: A RDC é o centro de uma disputa internacional por minerais essenciais para a transição energética global. Empresas chinesas, americanas e europeias competem por contratos de exploração. Neste tabuleiro, as vidas negras congolesas são tratadas como variável descartável. A comunidade internacional, que se mobiliza por crises em outras partes do mundo, mantém-se em silêncio diante da morte de 54 civis — e de milhões de outros que já tombaram na região.


Fontes consultadas

Infobae: Al menos 54 civiles muertos por combates entre el Ejército y los rebeldes en la RD Congo (06/07/2026)

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