África em Conflito
HRW denuncia atrocidades de todos os lados no Mali após escalada que matou ministro da Defesa
Relatório da Human Rights Watch aponta que jihadistas do JNIM, forças malianas e aliados russos cometeram graves abusos contra civis após a escalada iniciada em abril de 2026.
Em relatório divulgado em 28 de junho, a Human Rights Watch (HRW) denunciou que todos os lados do conflito no Mali — jihadistas do JNIM, Forças Armadas do Mali e seus aliados russos do Corpo África — cometeram graves abusos contra civis desde a escalada dos combates iniciada em abril de 2026.
O relatório, intitulado Mali: Grave Abuses Amid Renewed Fighting, documenta assassinatos, execuções sumárias, ataques aéreos contra civis, saques e destruição de propriedades. A organização entrevistou 34 pessoas entre 26 de abril e 9 de junho, incluindo 30 testemunhas diretas dos abusos, além de membros da sociedade civil, líderes comunitários e jornalistas. Também verificou e geolocalizou quatro vídeos e seis fotografias publicadas online, além de analisar imagens de satélite.
O marco inicial da escalada ocorreu em 25 de abril de 2026, quando o JNIM — grupo afiliado à Al-Qaeda — e a Frente de Libertação do Azawad (FLA), aliança de separatistas tuaregues, lançaram uma série de ataques coordenados em diferentes regiões do Mali.
O ataque que matou o ministro da Defesa
Entre os alvos estava a residência do ministro da Defesa do Mali, o general Sadio Camara, em Kati, na região metropolitana de Bamako. Um caminhão carregado de explosivos foi detonado contra o local. Camara, de 47 anos, morreu no ataque.
Além de Kati, os insurgentes atacaram o Aeroporto Internacional de Bamako, as cidades de Gao e Kidal, no norte, e Sévaré, na região central do país. Dois outros altos comandantes militares ficaram feridos: o general Modibo Koné, diretor da Agência Nacional de Segurança do Estado (ANSE), e o general Oumar Diarra, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. O líder da junta, general Assimi Goïta, foi evacuado para um local seguro.
O governo do Mali decretou dois dias de luto nacional. O Conselho de Segurança da ONU condenou os ataques e pediu a responsabilização dos envolvidos.
O cerco a Bamako e os ataques a civis
Três dias após os ataques iniciais, em 28 de abril, o JNIM anunciou um “cerco total” à capital, Bamako, ameaçando matar civis que obstruíssem suas operações e atacando veículos civis.
Entre 6 e 21 de maio, militantes do JNIM queimaram mais de 40 veículos civis com destino a Bamako, sob a acusação de violarem o cerco imposto pelo grupo. Em Tonka, no norte do país, um homem foi executado publicamente. Em 25 de abril, confrontos entre o JNIM e a FLA contra forças malianas e o Corpo África em Gao e Kidal mataram 13 civis e feriram pelo menos 25.
As Forças Armadas do Mali e os ataques a comunidades Fulani
As Forças Armadas do Mali também são responsabilizadas por graves abusos. Entre 14 e 17 de maio, o Exército conduziu operações contra a comunidade Fulani no centro do país, matando 38 civis, incluindo 23 crianças.
A HRW também documentou dois ataques com drones aparentemente realizados pelo Exército malaio: um em Guimbé, em 25 de abril, que matou 12 crianças e adolescentes, e outro em Tené, em 17 de maio, que matou 10 adultos.
O papel da Rússia e a impunidade
A junta militar do Mali, liderada por Assimi Goïta, é apoiada por combatentes russos do Corpo África (Africa Corps), sucessor do Grupo Wagner. A HRW afirma que forças malianas e seus aliados russos cometeram abusos com total impunidade.
A pesquisadora sênior da HRW para o Sahel, Ilaria Allegrozzi, afirmou:
“À medida que os combates se intensificam novamente, as partes beligerantes no Mali estão mais uma vez cometendo graves abusos contra civis, repetindo padrões anteriores de violência contra a população. A impunidade de longa data continua a alimentar o ciclo de abusos.”
A HRW informou que enviou uma carta ao ministro da Justiça do Mali em 11 de junho, mas não recebeu resposta.
A Lente BNB revela
O relatório da Human Rights Watch evidencia que, no Mali, civis continuam sendo vítimas de abusos cometidos por diferentes atores armados. Ao atribuir violações ao JNIM, às Forças Armadas do Mali e ao Corpo África, a organização reforça que a população permanece exposta à violência e à impunidade em um conflito que recebe atenção internacional limitada. A morte do ministro da Defesa, confirmada oficialmente pelo governo do Mali, não interrompeu a escalada da violência nem reduziu os riscos enfrentados pelos civis. O cenário reacende o debate sobre a desigualdade na mobilização internacional diante das crises humanitárias que atingem o Sahel.
Fontes consultadas
HRW: Mali – Grave Abuses Amid Renewed Fighting (28/06/2026)
AP News: All warring parties in Mali committed serious abuses against civilians, report says (29/06/2026)
AIP: Le ministre de la Défense Sadio Camara tué lors d’attaques coordonnées au Mali (26/04/2026)
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