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Sudão

Sudão do Sul: ONU alerta para crimes de guerra e risco de colapso total

Alto-comissário da ONU denuncia que mais de 160 civis foram mortos nos últimos 17 dias, incluindo 139 em massacre no dia 1º de março. Governo ordena evacuação de Akobo para ofensiva militar; MSF alerta para risco a centenas de milhares.

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O alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, declarou estar “horrorizado” com os relatos de violações graves no Sudão do Sul e alertou que alguns dos atos podem “configurar crimes de guerra”. Nos últimos 17 dias, mais de 160 civis foram mortos, incluindo pelo menos 139 pessoas em 1º de março na localidade de Abiemnom, na Área Administrativa de Ruweng, em ataque atribuído a combatentes da etnia Bul Nuer. Outros 21 civis foram mortos em 21 de fevereiro em Pankor, no estado de Jonglei, por forças governamentais.

“Civis estão sendo brutalmente mortos, feridos e deslocados diariamente em todo o Sudão do Sul, à medida que as hostilidades se intensificam entre o exército e as forças de oposição”, afirmou Türk. O escritório de direitos humanos da ONU também denunciou que forças governamentais destruíram ou contaminaram fontes de água comunitárias, com relatos de que cerca de 99 poços foram destruídos ou envenenados durante ataques aéreos.

A violência forçou mais de 280 mil pessoas a fugir de suas casas desde o final de dezembro, quando confrontos entre forças leais ao presidente Salva Kiir e grupos oposicionistas se intensificaram no estado de Jonglei.

Ofensiva militar em Akobo ameaça civis

No último dia 6 de março, as Forças de Defesa do Sudão do Sul (SSPDF) emitiram uma ordem determinando que civis, organizações humanitárias e a Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul (UNMISS) deixassem o condado de Akobo, no estado de Jonglei, no prazo de 72 horas. O ultimato expirou nesta segunda-feira (9), e a ofensiva militar contra áreas controladas pela oposição deve ter início nos próximos dias.

O condado de Akobo abriga cerca de 270 mil deslocados – mais da metade mulheres e crianças – que fugiram dos combates em outras regiões, tornando a área um “refúgio crítico para pessoas que fogem da violência”. As agências humanitárias alertam que qualquer ação militar em área densamente povoada exporia civis a grave perigo e poderia desencadear uma catástrofe humanitária.

A UNMISS afirmou que não cumprirá a ordem de evacuação e manterá sua base para garantir “presença protetora para civis”. A chefe da missão, Anita Kiki Gbeho, alertou que qualquer operação militar em Akobo ou arredores colocaria civis em sério risco.

A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) retirou sua equipe do hospital de Akobo no sábado (7) por questões de segurança e informou que a unidade foi saqueada. A organização alertou que centenas de milhares de pessoas correm “risco iminente” com a ofensiva.

Envolvimento regional e colapso do acordo de paz

A escalada da violência ocorre em meio ao colapso do frágil acordo de paz de 2018, que colocou fim à guerra civil de cinco anos que custou cerca de 400 mil vidas. Em setembro, o líder da oposição Riek Machar foi destituído da vice-presidência e encontra-se em prisão domiciliar em Juba, acusado de orquestrar ataques de milícias – acusações que seus apoiadores classificam como politicamente motivadas.

Relatório da Comissão de Direitos Humanos da ONU aponta que tropas ugandenses ajudaram o Sudão do Sul a realizar ataques aéreos que mataram e queimaram civis em 2025. As forças ugandenses estão atualmente destacadas no país em apoio ao governo Kiir, sob um acordo bilateral de segurança. Testemunhas relataram que aeronaves lançaram “barris de líquido que se incendiavam”, deixando vítimas carbonizadas.

O governo sul-sudanês defende a ordem de evacuação de Akobo como uma medida para “garantir que civis não sejam pegos em fogo cruzado”. O ministro da Informação, Ateny Wek Ateny, afirmou que a diretriz foi um “acompanhamento” de correspondências anteriores com a UNMISS sobre o fechamento da base temporária.

A população de Akobo, diante do impasse, começou a fugir em massa para a vizinha Etiópia após o vencimento do ultimato. “Os cidadãos estão fugindo para a Etiópia por causa da ordem emitida”, relatou John Wiyual Lul, comissário do condado indicado pelo SPLA-IO.

Enquanto as potências internacionais trocam acusações e a comunidade assiste de longe, a população civil negra do Sudão do Sul segue pagando o preço mais alto de um conflito alimentado por disputas de poder, etnia e recursos, com um sistema de saúde em colapso onde mais de 80% da assistência médica é prestada por organizações estrangeiras.

Fontes consultadas: Anadolu Ajansı: UN rights chief urges immediate ceasefire in South Sudan as fears of war crimes grow (09/03/2026), Panapress: Fears grow over return to all-out civil war in South Sudan (09/03/2026), Radio Tamazuj: RJMEC concerned about SSPDF Akobo County order, calls for restraint (09/03/2026), Radio Tamazuj: South Sudan defends order to close UN base in Akobo (09/03/2026), Plus News: UN Report Says Ugandan Troops Helped South Sudan With Deadly Airstrikes (09/03/2026), Wyoming News Now: Huge numbers at imminent risk from S.Sudan army offensive: MSF (08/03/2026)

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