África em Conflito

Grupo armado invade distrito de Quissanga e agrava crise humanitária em Cabo Delgado

Na terça-feira (14), grupos armados ligados ao Estado Islâmico invadiram o distrito de Quissanga, mataram um agricultor e obrigaram moradores a abandonar áreas de cultivo. O conflito já deslocou mais de 12 mil pessoas apenas em junho, com 79% de mulheres e crianças entre as vítimas.

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Na terça-feira (14), um grupo armado ligado ao Estado Islâmico invadiu o distrito de Quissanga, na província de Cabo Delgado, e matou um agricultor no centro de produção agrícola de Pwiriri, no posto administrativo de Bilibiza. Esta não é a primeira vez que, em menos de um mês, os extremistas escalam a região de Pwiriri. Na recente deslocação de regresso da zona sul de Cabo Delgado, o grupo teria passado pela área, onde roubou arroz e obrigou os produtores a abandonar suas machambas.

A situação de insegurança se espalha por toda a região. Produtores agrícolas dos distritos de Macomia e Quissanga relatam um ambiente crescente de insegurança, com agricultores das aldeias Puiri e Cagembe sendo ameaçados por homens armados. Na aldeia V Congresso, em Macomia, foram ouvidos disparos no último fim de semana, aumentando o clima de medo entre os habitantes. Várias pessoas abandonaram as áreas de cultivo e se refugiaram em localidades consideradas seguras.

O cenário de violência já provocou uma crise humanitária de grandes proporções. Dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) apontam que mais de 12 mil pessoas foram deslocadas em Cabo Delgado apenas em junho, elevando para 26 mil o total de afetados desde o início de 2026. Mulheres e crianças representam 79% das pessoas deslocadas. O OCHA também alerta que o financiamento para a resposta humanitária recebeu apenas 29% do necessário, com apenas US$ 152 milhões mobilizados dos US$ 534 milhões requeridos. Segundo o OCHA, a maior parte dos deslocados buscou abrigo em comunidades vizinhas e centros de acolhimento improvisados.

A violência, que já dura oito anos, não dá sinais de trégua. A organização ACLED registrou 11 eventos violentos nas duas primeiras semanas de julho, todos envolvendo extremistas do Estado Islâmico. Desde o início do conflito, em outubro de 2017, já foram contabilizadas 6.632 mortes. Apenas nas duas primeiras semanas de julho, o Estado Islâmico reivindicou ataques que resultaram na morte de cinco militares moçambicanos e na captura de um sexto.

Com a intensificação dos ataques e o avanço da crise humanitária, autoridades moçambicanas e organizações internacionais enfrentam o desafio de ampliar simultaneamente a proteção da população civil e a assistência aos milhares de deslocados. O cenário indica que Cabo Delgado permanece como um dos principais focos de instabilidade no sul da África.

Lente BNB

Cabo Delgado, uma das províncias mais ricas em gás natural do continente africano, é palco de uma guerra que a comunidade internacional insiste em tratar como “problema local”. Enquanto potências estrangeiras disputam contratos de exploração de gás, a população negra moçambicana paga o preço mais alto: oito anos de conflito, mais de 6.600 mortos, mais de 26 mil deslocados só neste ano — a maioria mulheres e crianças que já foram forçadas a fugir cinco ou mais vezes.

A crise humanitária se agrava pela falta de financiamento internacional — apenas 29% dos recursos necessários foram mobilizados. A pergunta que fica é: o que seria necessário para que a guerra em Cabo Delgado recebesse a mesma atenção que outros conflitos no mundo? A resposta, para a Lente BNB, passa pela cor das vítimas e pela distância dos holofotes da mídia global. A persistência do conflito demonstra que segurança, desenvolvimento e acesso aos recursos naturais continuam inseparáveis em Cabo Delgado.

Fontes consultadas

Carta MZ: Ataques Terroristas inibem produção em Macomia e Quissanga (13/07/2026)
Observador: Extremistas do Estado Islâmico reivindicam ataque a militares em Moçambique (07/07/2026)
AIM News: OCHA recorded over 12,000 displaced persons last June (13/07/2026)
Correio da Manhã Canadá: Mais de 12 mil deslocados em Cabo Delgado em junho (10/07/2026)

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