Educação & Sociedade

ICL demite jornalistas enquanto Moreira antecipa R$ 43 milhões

Nesta terça-feira (21), a crise no ICL escancara a contradição de Eduardo Moreira, que demitiu 15 jornalistas, incluindo a repórter negra Alice Maciel, após antecipar R$ 43,6 milhões em lucros para não pagar R$ 5 milhões em impostos. Ex-sócio do Banco Pactual, Moreira construiu sua imagem de progressista, mas pratica o que combate.

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Nesta terça-feira (21), a crise no Instituto Conhecimento Liberta (ICL) escancara a distância entre o discurso e a prática de seu fundador, Eduardo Moreira. O instituto, que se apresenta como um oásis de independência no deserto da mídia tradicional, demitiu cerca de 15 jornalistas, incluindo a repórter negra Alice Maciel, enquanto Moreira antecipava R$ 43,6 milhões em lucros para evitar o pagamento de R$ 5 milhões em impostos.

Eduardo Moreira não é um empreendedor qualquer. Antes de fundar o ICL, ele construiu sua fortuna no coração do mercado financeiro. Foi sócio do Banco Pactual, o mesmo banco que, sob a liderança de André Esteves, se tornou o BTG Pactual, um dos maiores bancos de investimento do país. Depois, cofundou o Banco Brasil Plural e criou a Genial Investimentos. Moreira circulou pelas mesmas mesas da Faria Lima que hoje ele critica em seus programas.

Sua trajetória, no entanto, não é linear. Em 2015, Moreira estava na Avenida Paulista, não para protestar contra a elite, mas para comemorar o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Naquele momento, ele ainda era o banqueiro alinhado com a direita que via no afastamento da petista uma vitória. Poucos anos depois, passou a atuar como comentarista e produtor de conteúdo voltado ao campo progressista, alcançando grande audiência no YouTube.

Moreira construiu sua imagem pública como um defensor ferrenho da reforma tributária. Em seus programas, repetiu à exaustão que o Brasil tributa excessivamente o consumo e pouco a renda dos mais ricos. Chegou a afirmar: “Enquanto o rico não dormir com medo, não vai mudar”.

Mas, quando a legislação que ele mesmo defendia começou a valer, Moreira agiu como qualquer banqueiro da Faria Lima. Em 2025, antecipou a distribuição de R$ 43,6 milhões em lucros aos sócios, R$ 25,1 milhões para ele e R$ 16,7 milhões para seu sócio Rafael Donatiello, para evitar o pagamento de cerca de R$ 5 milhões em impostos sobre dividendos. Em vídeo publicado nas redes sociais, ele justificou: “A gente precisou fazer isso para não pagar indevidamente mais de 5 milhões de reais em impostos”.

A contradição é brutal. O mesmo homem que pregava a taxação dos super-ricos usou todos os artifícios do mercado financeiro para não ser taxado.

As demissões

A antecipação dos lucros ocorreu em 2025. Poucos meses depois, em julho de 2026, o ICL promoveu uma grande demissão que atingiu cerca de 15 profissionais, incluindo nomes de peso do jornalismo investigativo.

Entre os nomes divulgados publicamente até a data desta publicação estão:

  • Leandro Demori, diretor de Jornalismo, demitido após não aceitar um corte de 30% no orçamento;
  • Alice Maciel, repórter investigativa premiada;
  • Adriana Ferreira, apresentadora;
  • Eduardo Souza, diretor-executivo;
  • Nina Lemos, colunista;
  • Pedro Barciela, analista de redes;
  • Cesar Calejon, apresentador, que pediu demissão em solidariedade.

Calejon, em um vídeo emocionado, relatou:

“A gente vinha ajeitando esse time durante os últimos dois anos. No meio das minhas férias, chega a notícia de que uma transformação radical tinha sido organizada na redação, que o nosso time estava desfeito.”

O timing das demissões e o legado dos jornalistas

As demissões ocorreram poucos meses antes das eleições presidenciais de 2026, exatamente quando o ICL estaria no auge de sua cobertura política. Moreira justificou os cortes como uma “medida necessária” para adequar os custos à realidade financeira.

A sequência entre a distribuição antecipada de dividendos e a reestruturação do instituto passou a ser alvo de críticas públicas, principalmente pela aparente incompatibilidade entre a situação financeira apresentada pela empresa e a decisão de reduzir sua equipe de jornalismo.

Apesar da crise, o trabalho dos profissionais demitidos foi de excelência. A repórter Alice Maciel, negra, ganhou notoriedade por suas reportagens investigativas. A equipe do programa N1, formada por Demori, Calejon e outros, havia sido montada durante dois anos para cobrir o “campeonato” eleitoral. A demissão em massa, portanto, não reflete a competência dos profissionais, mas sim a prioridade de um dono que colocou a economia fiscal acima do compromisso com o jornalismo.

Com a repercussão das demissões e da antecipação da distribuição de dividendos, a crise do ICL passou a mobilizar debates sobre gestão empresarial, coerência entre discurso público e prática financeira, além dos impactos da reestruturação sobre a cobertura jornalística às vésperas das eleições de 2026.

Lente BNB

A crise no ICL é um capítulo revelador da dinâmica de poder no Brasil. Eduardo Moreira construiu uma fortuna no coração do sistema financeiro, ao lado de figuras como André Esteves. Depois, encontrou um nicho lucrativo: vender um discurso progressista para um público que busca alternativas à mídia tradicional. Mas, quando chegou a hora de pagar impostos, ele agiu como qualquer banqueiro da Faria Lima, usando brechas legais para preservar seu patrimônio.

Entre os demitidos estava a jornalista negra Alice Maciel. Sua saída amplia o debate sobre diversidade e representação em veículos que se apresentam como alternativas à mídia tradicional. A crise também evidencia como decisões empresariais podem atingir profissionais que desempenhavam papel relevante na produção jornalística do instituto.

Enquanto isso, os jornalistas demitidos pagam o preço por uma reestruturação que poderia ter sido evitada com o dinheiro que Moreira poupou ao não pagar impostos. O que fica é a sensação de que, para o “banqueiro do bem”, a solidariedade e a justiça social são apenas produtos para consumo de seus assinantes, não princípios a serem praticados.

Fontes consultadas

TMC: Entenda as demissões no ICL e por que manobra fiscal virou crise (18/07/2026)
Gazeta do Povo: Imposto para os ricos, isenção para mim (19/07/2026)
Brasil 247: Eduardo Moreira confirma antecipação milionária de lucros (16/07/2026)
Brasil 247: Cesar Calejon pede demissão do ICL (16/07/2026)
Jornal Opção: Lista dos funcionários demitidos pelo ICL (14/07/2026)
Gazeta do Povo: Eduardo Moreira: o ex-banqueiro sensação da esquerda (19/07/2026)
Diário do Centro do Mundo: Sindicato acompanha demissões no ICL (16/07/2026)

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