Política

OLHAR: Professor da UFBA analisa crise na direita e o limite racial do bolsonarismo

O Republicanos negou apoio a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e ampliou o isolamento do senador. Para o professor Richard Santos, da UFBA, o recuo escancara o limite de um projeto que nunca incluiu a população negra e periférica. “Enquanto não houver diálogo real com as periferias, a crise de representatividade da direita continuará se aprofundando.”

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O partido Republicanos divulgou neste domingo (12) uma nota oficial negando qualquer apoio à pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República. A legenda também refutou a existência de negociações para indicar seu presidente nacional, Marcos Pereira, a uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão amplia o isolamento de Flávio na pré-campanha, em um momento em que partidos como União Brasil e PP já haviam indicado “zero chance” de apoiar o filho do ex-presidente.

Para Richard Santos, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas e autor do livro Comunicação em disputa: a luta pelo imaginário da América Latina na Era Trump, o recuo do Republicanos não é apenas uma disputa interna por poder — é o reflexo de uma crise mais profunda. “A extrema direita brasileira sempre tratou pautas raciais como secundárias. Agora, sem um discurso que dialogue com a maioria negra do país, eles se veem divididos entre si”, analisa.

“Eles construíram uma base massiva de apoio popular, mas nunca desenvolveram um projeto que incluísse de fato as periferias negras”, continua Santos. “O discurso de segurança pública, que é central para a direita, sempre tratou o jovem negro como suspeito, nunca como cidadão. Isso cria um limite estrutural para qualquer candidato desse campo.”

A crise não se limita ao Republicanos. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que havia contribuído com o programa de governo de Flávio, encerrou essa etapa e não esclareceu se participará ativamente da campanha. No fim de junho, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) gravou um vídeo em que afirmou ter sido “maltratada e humilhada” por Flávio. Diante do cenário, Flávio Bolsonaro recorreu às redes sociais para ler uma carta atribuída ao pai, Jair Bolsonaro, conclamando apoiadores à unidade.

Na avaliação de Richard Santos, esses episódios fazem parte de um mesmo processo de fragmentação política da direita brasileira.

Para Santos, a fragmentação da direita não é uma boa notícia para a população negra. “Enquanto a direita se divide em disputas internas, as pautas raciais e sociais são deixadas de lado. O eleitorado negro, que é decisivo nas eleições, fica sem respostas concretas sobre políticas de reparação, cotas e segurança pública. A ausência de um projeto para as periferias é a marca registrada desse campo político.”

Ainda segundo o professor, a comunicação da extrema direita é projetada para subalternizar e excluir as “maiorias minorizadas”. “Os seguidores de Bolsonaro estão testando novas formas de agir, pensando em 2026. Mas, enquanto não houver um diálogo real com a população negra, essa crise de representatividade continuará se aprofundando.”

O recuo do Republicanos, neste contexto, não é apenas um revés eleitoral para Flávio Bolsonaro. É o sintoma de uma incapacidade estrutural da direita brasileira de se conectar com o eleitorado que será decisivo em 2026 — o mesmo eleitorado que, há décadas, espera respostas concretas para questões que vão do racismo estrutural à segurança pública. Enquanto o campo conservador se digladia, as periferias seguem à espera de um projeto que as inclua. Essa é a crise que o professor Richard Santos enxerga com clareza: a direita pode até se reorganizar, mas, sem enfrentar sua própria contradição racial, continuará dançando no fio da navalha.

Lente BNB

A recusa do Republicanos em apoiar Flávio Bolsonaro expõe a fragilidade de um projeto político que, desde sua origem, trata a questão racial como um tema periférico. Como aponta o professor Richard Santos, a comunicação da extrema direita é projetada para subalternizar e excluir as “maiorias minorizadas”.

A ausência de um diálogo real com as periferias não é um acaso. É a marca registrada de um campo político que sempre tratou o jovem negro como suspeito, e não como cidadão. Enquanto a direita se digladia por poder, a pergunta que fica é: quem estará falando com as periferias em 2026? A resposta, para o professor Santos, é clara: enquanto não houver um projeto que inclua a maioria negra, a crise de representatividade da direita continuará se aprofundando.

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Fontes consultadas

Semana On: Extrema direita usa comunicação para dominar população, diz professor da UFBA (04/07/2025)
UOL: Republicanos nega apoio a Flávio e quer ouvir bases (12/07/2026)
Metrópoles: Republicanos nega apoio a Flávio e amplia isolamento (12/07/2026)
Brasil 247: Republicanos nega apoio a Flávio e amplia crise (12/07/2026)
Correio Braziliense: Republicanos nega apoio a Flávio e descarta Lula (12/07/2026)

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