Racismo

Apoio de famosos a condenado por racismo expõe pacto que fragiliza vítimas negras

Xuxa, Deborah Secco e outros artistas manifestaram apoio público a Rodrigo Branco, condenado por injúria racial contra Thelminha. O episódio prova o pacto da branquitude: uma estrutura que protege o agressor branco e fragiliza a vítima negra.

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Arte: BlackNews BRASIL / BNB Studio

O empresário Rodrigo Branco voltou ao centro do debate público após divulgar um vídeo pedindo desculpas pelo episódio que resultou em sua condenação por injúria racial contra a médica, influenciadora e campeã do BBB 20, Thelma Assis.

A condenação foi resultado de um processo que se arrastou por cerca de seis anos. Na ocasião, Rodrigo Branco afirmou que Thelma era uma “negra coitada” e sugeriu que sua torcida durante o reality existia apenas por causa de sua identidade racial.

Após o pagamento da indenização determinada pela Justiça, estimada em mais de R$ 76 mil, uma série de celebridades manifestou apoio público ao empresário.

Entre os nomes citados pela imprensa estão Xuxa Meneghel, Deborah Secco, Adriane Galisteu, Lívia Andrade, Simone Mendes, Gkay, Astrid Fontenelle e Junno Andrade.

A repercussão foi imediata. Para o BlackNews BRASIL, um veículo negro que se recusa a naturalizar o racismo, o episódio escancara uma ferida que arde há séculos: enquanto vítimas negras lutam sozinhas por anos para ver sua dor reconhecida, agressores brancos são acolhidos em poucas horas por uma rede de proteção que nunca falha.

Seis anos para condenar, horas para acolher

O caso envolvendo Thelma Assis teve início em 2020. Desde então, a médica precisou percorrer todo o caminho judicial até obter uma decisão definitiva que reconhecesse a violência racial sofrida. O contraste é brutal: a Justiça levou anos para concluir o processo. Já a mobilização em defesa de Rodrigo Branco ocorreu quase imediatamente após a divulgação do vídeo de desculpas e do pagamento da indenização.

Em poucas horas, artistas e personalidades públicas passaram a destacar arrependimento, aprendizado e reconstrução pessoal. O centro da discussão deixou de ser a agressão sofrida por Thelma e passou a ser o sofrimento, o arrependimento e a recuperação da imagem do condenado.

O BNB pergunta: onde estavam Xuxa, Deborah Secco e os outros quando Thelminha sangrava sozinha durante seis anos?

Quando a vítima desaparece da narrativa

Especialistas em relações raciais observam que episódios de racismo frequentemente produzem uma inversão de foco. A atenção pública migra da violência sofrida para a situação social do agressor após sua responsabilização. Nesse processo, a vítima volta a ocupar um papel secundário na narrativa.

Foi o que muitos críticos apontaram neste caso. Enquanto mensagens de carinho e acolhimento eram direcionadas ao empresário, Thelma Assis aparecia de forma muito menos presente nas manifestações públicas que dominaram as redes sociais. A discussão deixou de ser apenas jurídica. Tornou-se uma discussão sobre memória, responsabilidade e sobre quem recebe empatia quando o racismo entra em cena.

Para o BNB, isso não é coincidência. É estrutura.

O pacto da branquitude em ação

A mobilização em defesa de Rodrigo Branco também trouxe para o debate o conceito de pacto da branquitude, desenvolvido pela psicóloga e pesquisadora Maria Aparecida Bento.

A autora define o fenômeno como um conjunto de mecanismos sociais de proteção, valorização e reconhecimento que operam entre pessoas brancas, preservando privilégios e reduzindo os custos sociais de determinadas condutas.

O pacto não precisa ser explícito ou consciente para funcionar. Como explica Winnie Santos, do CEERT: “Todo mundo é socializado com esse pensamento”. Ele se manifesta justamente nas reações automáticas — na primeira resposta, no acolhimento imediato, em quem recebe o benefício da dúvida primeiro. No caso de Thelminha, a vítima precisou esperar seis anos para que a Justiça reconhecesse formalmente a violência sofrida. Já Rodrigo Branco recebeu manifestações públicas de apoio poucas horas após tornar pública sua tentativa de reparação.

Astrid Fontenelle, uma das apoiadoras, voltou atrás após a repercussão negativa. Em vídeo divulgado nas redes sociais, ela pediu desculpas e reconheceu: “Enfim, tem muita coisa a perder, porque se tem gente que perde muito mais, é quem sofre o racismo”.

O recuo, no entanto, não desfaz o gesto automático: a primeira reação de Xuxa, Deborah Secco e outras celebridades foi proteger o agressor. Diante de uma mulher negra que sofreu racismo, a resposta foi silêncio.

O BNB não pode se dar ao luxo de silenciar. Porque é preto, porque é feito de corpos que sangram, porque sabe que, se não falar agora, a história vai se repetir.

A Lente BNB revela

O pacto da branquitude não aparece apenas em decisões políticas, econômicas ou institucionais. Ele também se manifesta nos pequenos gestos que definem quem merece proteção, quem merece compreensão e quem merece recomeçar.

Thelma Assis precisou enfrentar seis anos de desgaste emocional, exposição pública e disputa judicial para obter reconhecimento. Rodrigo Branco levou poucas horas para receber apoio de algumas das personalidades mais conhecidas do país.

O BNB está do lado de Thelminha. Não porque ela é uma celebridade. Porque ela é uma mulher negra que, como tantas outras, teve que provar sua dor para ser ouvida. A Justiça levou seis anos para condenar Rodrigo Branco. A sociedade branca levou horas para acolhê-lo.

Essa diferença de tratamento ajuda a explicar por que tantas pessoas negras enxergam o racismo não apenas como uma agressão individual, mas como uma estrutura que distribui empatia, proteção e credibilidade de forma desigual. Quando a sociedade corre para acolher quem praticou a violência antes de reconhecer plenamente quem a sofreu, o resultado é previsível: o agressor é reintegrado com rapidez, enquanto a vítima continua carregando sozinha o peso da agressão.

É nesse ponto que o pacto da branquitude deixa de ser apenas um conceito acadêmico e passa a ser uma experiência concreta da vida cotidiana de milhões de brasileiros negros — e o BNB está aqui para nomear isso.


Fontes consultadas

CNN Brasil: Famosos apoiam empresário após condenação por racismo contra Thelminha (24/06/2026)
Extra: Condenado por racismo contra campeã do ‘BBB’ paga indenização de R$ 76 mil e recebe apoio de Xuxa e Deborah Secco (23/06/2026)
CEERT: O que é o pacto da branquitude? (09/08/2024)
UOL: Astrid Fontenelle se retrata após apoiar condenado por racismo (24/06/2026)

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