Benin
Arquitetura Negra: Da Mão de Obra à Autoria Intelectual
Mestres negros ergueram o país, exportaram técnica para a África e hoje disputam a narrativa acadêmica. Conheça a evolução dessa engenharia ancestral.
A história da urbanização brasileira é, fundamentalmente, a história da técnica e da intelectualidade da Diáspora Africana. Ao analisar os registros dos séculos passados, fica evidente que os mestres de obras, engenheiros práticos e artífices negros não foram apenas força de trabalho; foram os detentores das tecnologias que permitiram a edificação do Brasil Colonial e que definiram a lógica de ocupação de nossas cidades.
Não se trata apenas de quem carregou a pedra, mas de quem detinha o conhecimento histórico para assentá-la.
Engenharia da Terra e o Gênio Artístico
Desde o início da colonização, a infraestrutura do país dependeu de soluções trazidas por povos africanos. O uso da taipa de pilão, essencial para erguer fortalezas e igrejas em tempo recorde, é um exemplo claro.
O arquiteto e historiador Nestor Goulart Reis Filho demonstra que a durabilidade das construções coloniais se deve à expertise desses construtores em manipular a terra crua — um conhecimento ancestral, trazido de regiões como Angola e Costa da Mina.
Esse domínio técnico permitiu a ascensão de figuras como Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. No século XVIII, ele rompeu as barreiras do racismo para se firmar não apenas como escultor, mas como arquiteto de obras-primas como a Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, provando que a sofisticação estética do barroco brasileiro é fruto direto da inteligência negra.
A Travessia de Volta: O Brasil no Benim
A prova documental da sofisticação dessa arquitetura é que ela foi exportada de volta para a África.
Ao observar a Grande Mesquita de Porto Novo, capital do Benim, construída no século XIX, nota-se a substituição dos minaretes tradicionais por torres laterais e frontispícios triangulares — uma réplica inequívoca das igrejas barrocas do Pelourinho.
Essa arquitetura foi documentada por pesquisadores como Marianno Carneiro da Cunha (autor de Da Senzala ao Sobrado). Ela foi executada pelos “Retornados” (Agudás) — ex-escravizados que, após a Revolta dos Malês (1835) e a abolição, voltaram à África levando consigo a tecnologia construtiva desenvolvida no Brasil, adaptando o estilo barroco às necessidades locais.
Urbanismo de Resistência: O Espaço Vivido
No Brasil, a influência da Diáspora transcende a técnica construtiva; ela molda a própria organização social do espaço urbano.
- O Terreiro: A arquiteta Eunice Helena Sguizzardi Abascal destaca que estruturas como os Terreiros de Candomblé operam como modelos de urbanismo circular e comunitário, integrando sagrado, moradia e natureza de forma orgânica.
- A Favela: Da mesma forma, a geógrafa Jurema D’Escragnolle Costa aponta que a formação das primeiras favelas, como o Morro da Providência, reflete uma capacidade de autonomia e engenharia adaptativa de uma população que teve o direito à cidade negado.
A Retomada Intelectual: O Legado Hoje
O saber que antes dominava o canteiro de obras agora ocupa a academia e reorienta o urbanismo nacional. A transição é clara: a população negra, que construiu as cidades, hoje reivindica a autoria intelectual sobre elas.
É o caso da Profa. Dra. Joana D’Arc Oliveira, que leva essa discussão para dentro de instituições tradicionais como a FAU-USP. Em sua obra “Da Senzala para onde?”, ela estabelece o conceito de territórios negros e questiona os destinos espaciais pós-abolição. Esse rigor científico dialoga diretamente com a prática de Gabriela de Matos, que cunhou o termo “Arquitetura Aquilombada”, e com iniciativas como o projeto Arquitetas Negras.
Seja nas teses acadêmicas ou na curadoria de bienais internacionais, o recado é uníssono: a modernidade brasileira foi forjada pela mão de obra negra e o futuro das cidades depende, agora, dessa inteligência projetual.





