RDC (Congo)
M23 controla Uvira e enfraquece negociações de paz no Congo
O grupo rebelde M23 assume o controle da estratégica cidade de Uvira, expondo o colapso do pacto de paz e o risco de expansão do conflito regional.
O acordo de paz recém-assinado entre a República Democrática do Congo (RDC) e Ruanda desmoronou em tempo recorde, com o grupo M23 consolidando o controle sobre a estratégica cidade de Uvira nesta quinta-feira (11).
O presidente congolês, Félix Tshisekedi, acusou Ruanda de violar o pacto logo nos dias seguintes à assinatura, enquanto os rebeldes, supostamente apoiados por Kigali, avançam rapidamente na província de Kivu do Sul.
A rápida falência do pacto expõe o alto custo da ambição pessoal de líderes ocidentais e a instrumentalização da estabilidade africana para atender aos interesses de potências externas.
A fragilidade da paz não é surpresa para analistas, mas a celebração em torno do acordo demonstrou a instrumentalização da estabilidade africana. O presidente americano, Donald Trump, celebrou o pacto como um “grande dia para o mundo” e um novo capítulo para a região.
A retórica de Trump, que buscava projetar uma imagem de liderança global e até o colocava como candidato natural ao Prêmio Nobel da Paz, não encontrou respaldo no terreno. Na mesma data da ratificação, organizações humanitárias alertavam para surtos de doenças e a grave situação de mais de 7 milhões de congoleses deslocados internamente. A ONU inclusive suspendeu a ajuda alimentar na província de Kivu do Sul devido aos avanços do M23.
O próprio Trump explicitou o componente econômico central do acordo ao declarar que enviaria “algumas das nossas maiores empresas… extrair terras raras… Todos vão ganhar muito dinheiro”. O pacto, portanto, se mistura a um corredor econômico que favorece a exploração de minerais estratégicos (cobalto e coltan), recursos que historicamente alimentam conflitos e desigualdade na região.
O avanço dos rebeldes para Uvira leva o conflito para as portas do vizinho Burundi, que mantém tropas no leste do Congo. Tshisekedi alegou que forças ruandesas realizaram e apoiaram ataques com armamento pesado na província de Kivu do Sul logo após o acordo ter sido assinado. O Departamento de Estado dos EUA afirmou estar “profundamente preocupado com a violência em curso” e cobrou Ruanda: “Ruanda, que continua a dar apoio ao M23, deve impedir uma escalada ainda maior”.
O rápido colapso do acordo, que foi elogiado como “milagroso”, comprova que a paz na RDC não pode ser uma fotografia de Washington, mas precisa de proteção real no terreno.







