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RDC (Congo)

Retirada sob Suspeita: Agentes do M23 Permanecem em Uvira

Apesar de anúncio de saída, agentes à paisana do M23 ocupam pontos estratégicos em Uvira, desafiando o acordo de paz mediado pelos EUA na República Democrática do Congo

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Moradores relatam presença do M23 em Uvira, RDC, após anúncio de retirada. / Reuters

Moradores e fontes de segurança da cidade de Uvira, no leste da República Democrática do Congo (RDC), relataram nesta quinta-feira (18 de dezembro de 2025) a presença contínua de agentes de inteligência e “soldados à paisana” vinculados ao grupo rebelde M23. Embora o grupo tenha anunciado o início de uma retirada oficial na quarta-feira, agentes sem farda permanecem posicionados em locais críticos, como a prefeitura, sedes administrativas e bancos. A manutenção desse aparato de vigilância ocorre logo após o grupo capturar a cidade, próxima à fronteira com o Burundi, em 10 de dezembro.

O contexto da ocupação é marcado por uma crise diplomática severa, já que a queda de Uvira aconteceu poucos dias depois de líderes congoleses e ruandeses assinarem um acordo de paz em Washington. A ofensiva do M23 atraiu forte condenação dos Estados Unidos, que classificaram a ação como uma “clara violação” do tratado mediado pela Casa Branca e prometeram medidas de retaliação. Embora tropas ostensivas tenham se deslocado para o norte da cidade, a artilharia rebelde foi localizada a apenas nove quilômetros de distância, mantendo a cidade sob alcance bélico imediato.

A análise da situação revela uma estratégia de controle invisível. Ao manter agentes de inteligência infiltrados enquanto retira o exército regular, o M23 exerce uma soberania paralela que desafia a autoridade do governo central da RDC. Quem ganha com essa manobra é o comando rebelde, que preserva sua influência sobre fluxos financeiros e administrativos em Uvira, sem sofrer o desgaste de uma ocupação militar visível perante a comunidade internacional. A recusa do grupo em informar a localização exata de suas tropas sugere que a movimentação é tática e não definitiva.

No quadro institucional, o governo congolês mantém uma postura de cautela extrema. O porta-voz Patrick Muyaya afirmou que a validade da retirada depende da capacidade das forças estatais de comprovar integralmente a retomada do controle da cidade. A soberania da RDC sobre o Kivu do Sul permanece fragmentada, com o Estado buscando restabelecer a ordem constitucional em uma região onde grupos armados operam com alto nível de agência e coordenação tática, muitas vezes à revelia de acordos internacionais.

O desdobramento imediato depende da verificação independente dessa retirada e da reação de Washington diante da manutenção de “soldados à paisana” no centro urbano. Os próximos passos a observar incluem a movimentação da artilharia rebelde estacionada nas proximidades e se o governo da RDC conseguirá reocupar os postos administrativos sem novos confrontos. A presença da inteligência do M23 em Uvira indica que o conflito entrou em uma fase de ocupação híbrida, exigindo vigilância constante sobre a segurança da população civil.

BlackNews Brasil – Um ecossistema de Jornalismo Negro e Independente.

Fontes Utilizadas: TRT Afrika; AFP; Fontes locais e de segurança da RDC.

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