Africa
África redefine geopolítica da energia com gasoduto de US$ 25 bilhões
Entre os dias 19 e 22 de julho, a CEDEAO aprovou o Gasoduto Atlântico Africano, projeto de US$ 25 bilhões que ligará Nigéria e Marrocos. Em meio à crise energética global, o empreendimento pode ampliar o papel estratégico da África como fornecedora de gás para a Europa e reposicionar o continente na disputa geopolítica por energia.
No domingo (19), os chefes de Estado da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) assinaram, em Freetown, Serra Leoa, o acordo intergovernamental que dá luz verde ao Gasoduto Atlântico Africano (AAGP), um dos maiores projetos de infraestrutura energética da história do continente. Estimado em US$ 25 bilhões, o gasoduto de aproximadamente 6.900 quilômetros atravessará 13 países costeiros da África Ocidental, desde a Nigéria até Marrocos, com conexão à rede europeia via Espanha.
O projeto vinha sendo negociado há cerca de uma década, desde seu lançamento pelo rei Mohammed VI e pelo então presidente nigeriano Muhammadu Buhari. Agora, entra em sua fase decisiva. A construção deve começar em 2028, com o fornecimento inicial de gás previsto para 2031.
A crise energética global e a disputa geopolítica
A aprovação do gasoduto ocorre em um momento crítico para a segurança energética mundial. Desde junho de 2026, o Estreito de Ormuz — por onde passavam cerca de 20% do petróleo e gás comercializados no mundo — está praticamente paralisado.
Segundo autoridades iranianas, o país anunciou o fechamento do estreito ao trânsito marítimo em 20 de junho, em resposta aos ataques israelenses no sul do Líbano e à alegada violação do memorando de entendimento com os Estados Unidos. A Guarda Revolucionária Iraniana declarou que o estreito permanece completamente bloqueado e que não permitirá a exportação de “nem uma gota de petróleo” enquanto as ações militares norte-americanas continuarem.
O cenário é agravado pela guerra na Ucrânia. A Europa, que antes dependia da Rússia para cerca de 40% do seu gás natural, ainda importa volumes significativos de gás russo. Com a continuidade dos conflitos no leste europeu e a interrupção parcial das rotas no Golfo Pérsico, o continente enfrenta uma das maiores pressões sobre sua segurança energética desde a crise do petróleo da década de 1970.
Nesse contexto, o Gasoduto Atlântico Africano tornou-se um ativo geopolítico de primeira grandeza.
- Estados Unidos: Interesse em investir para conter influência chinesa na África, garantir alternativa ao gás russo e assegurar segurança energética da Europa
- China: Fornecedora de tubos (Jingye Steel), garantindo posição na cadeia de suprimentos sem aporte de capital direto
- Emirados Árabes: Financiador potencial para ampliar influência na África e garantir acesso a energia
- Europa: Mercado consumidor em busca de diversificação de fontes de gás
A China, maior importadora de petróleo do mundo, acompanha a evolução do projeto porque cerca de metade de suas importações de petróleo e 29% do gás natural liquefeito (GNL) passam pelo Estreito de Ormuz. Desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, Pequim tem defendido publicamente a redução das tensões na região. Em março de 2026, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, afirmou que era necessário cessar imediatamente os combates para evitar novos impactos sobre a economia global.
Embora não seja financiadora direta do empreendimento, a China participa da cadeia de suprimentos por meio da fabricante de tubos Jingye Steel, garantindo presença estratégica caso o projeto avance conforme o cronograma previsto.
O paradoxo africano
O especialista em energia Charles Majomi, ex-conselheiro do governo nigeriano, destacou que o projeto sinaliza uma mudança no modelo atual, em que o gás é extraído da África, refinado no exterior e vendido de volta ao continente a preços muito mais altos.
“Isso deve acabar, porque é uma desvalorização completa do recurso.”
O Gasoduto Atlântico Africano, no entanto, ainda enfrenta desafios significativos. A rota proposta atravessa áreas afetadas por insegurança no Mali, Burkina Faso e Níger e pode enfrentar exigências do novo regulamento europeu sobre emissões de metano, previsto para entrar em vigor em 2027. A construção em etapas — iniciando pelo eixo Marrocos-Mauritânia-Senegal — é a estratégia adotada para aumentar a viabilidade do empreendimento.
Se o cronograma for mantido, os próximos anos mostrarão se o projeto conseguirá superar seus desafios técnicos, financeiros e políticos e transformar a África Ocidental em um novo eixo estratégico do mercado mundial de gás natural. A resposta definirá não apenas o futuro energético da região, mas também o peso geopolítico do continente nas próximas décadas.
Lente BNB
O Gasoduto Atlântico Africano não é apenas um projeto de infraestrutura. É o retrato de um mundo em transformação, onde as rotas energéticas se tornaram o principal campo de batalha geopolítico do século XXI.
A guerra EUA-Irã paralisou o Estreito de Ormuz, elevando a importância de novas rotas de abastecimento. A guerra Rússia-Ucrânia mantém a Europa buscando alternativas ao gás russo. Nesse cenário, o gás da África Ocidental deixou de ser apenas um recurso regional e passou a ocupar posição estratégica no tabuleiro internacional.
A presença chinesa na cadeia de suprimentos demonstra que Pequim busca garantir influência mesmo sem assumir o financiamento direto do empreendimento. Ao mesmo tempo, Estados Unidos, Europa e países do Golfo também acompanham o projeto por interesses econômicos e geopolíticos próprios.
A pergunta central, porém, permanece: os US$ 25 bilhões previstos para o gasoduto resultarão em desenvolvimento para as populações da África Ocidental ou repetir-se-á um modelo em que os principais benefícios ficam concentrados em governos, grandes empresas e potências estrangeiras?
Enquanto diferentes atores disputam espaço na nova ordem energética mundial, a África deixa de ocupar apenas a posição de fornecedora de recursos naturais e passa a influenciar, cada vez mais, as decisões estratégicas sobre segurança energética global.
Fontes consultadas
Reuters: West Africa’s ECOWAS bloc signs agreement backing Nigeria-Morocco atlantic gas pipeline (20/07/2026)
BBC: West Africa signs off $25bn mega gas-pipeline plan (20/07/2026)
CNN Brasil: China alerta que guerra com Irã ameaça Estreito de Ormuz (04/03/2026)
DW: Irã anuncia fechamento do Estreito de Ormuz (20/06/2026)
G1: Quem vai controlar o Estreito de Ormuz? (09/07/2026)
The New York Times: Iran War Live Updates (22/07/2026)
North Africa Post: US and China Compete for Stake in Morocco-Nigeria Gas Pipeline (01/07/2026)
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