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África em Conflito

OMS: Ebola na RDC ultrapassa 4 mil casos

O surto de Ebola na República Democrática do Congo ultrapassou 4 mil casos confirmados e 1.850 mortes, tornando-se o maior da história do país e o segundo maior do mundo. A OMS alertou que a transmissão avança mais rápido que a capacidade de resposta, com o vírus chegando a campos de deslocados e sobrecarregando centros de tratamento.

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Profissional de saúde na RDC — Foto: REUTERS/Gradel Muyisa Mumbere

Nesta sexta-feira (7), a República Democrática do Congo ultrapassou a marca de 4 mil casos confirmados de Ebola, consolidando o maior surto já registrado no país e o segundo maior da história mundial. O Ministério da Saúde contabilizou 4.053 infecções confirmadas e 1.850 mortes, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças (CDC África) alertaram que a epidemia cresce mais rapidamente do que a capacidade de resposta das autoridades sanitárias.

A cepa em circulação é a Bundibugyo, identificada pela primeira vez em Uganda em 2007. Diferentemente da variante Zaire, responsável pela maioria dos surtos anteriores, ela ainda não possui vacina nem tratamento específico aprovados, tornando o cenário ainda mais desafiador. O surto atual, iniciado em meados de maio, já superou a epidemia de 2018 e se tornou o maior da história da RDC.

Números do surto e situação atual

Os indicadores mostram a velocidade da expansão da epidemia e a crescente pressão sobre o sistema de saúde congolês.

De acordo com o boletim epidemiológico, a doença já atingiu 53 zonas de saúde distribuídas pelas províncias de Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul, Haut-Uélé e Tshopo. O epicentro permanece em Ituri, responsável por cerca de 87% dos casos confirmados, com destaque para a zona de saúde de Bunia, que registra 950 casos confirmados e 289 mortes.

Indicador Número
Casos confirmados 4.053
Mortes confirmadas 1.850
Recuperações 793
Pacientes em isolamento 694
Zonas de saúde afetadas 53

Na província de Tshopo, uma das áreas mais recentemente afetadas, já foram confirmados nove casos e cinco mortes, com taxa de letalidade de 56%. As autoridades locais relatam dificuldades para rastrear contatos, incluindo a resistência de um militar infectado em aceitar o isolamento e a impossibilidade de acesso a uma igreja onde um paciente esteve durante o período de transmissão.

Desafios na resposta e alerta da OMS

A OMS e o CDC África realizaram uma missão conjunta na RDC e em Uganda para avaliar a evolução do surto. Ao final da visita, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que, em algumas regiões do leste congolês, “o surto de Ebola está progredindo mais rápido do que nossa capacidade de resposta” e pediu um engajamento internacional maciço.

A missão identificou cinco grandes obstáculos para conter a epidemia:

  • rastreamento de contatos limitado a cerca de 75%, abaixo dos 95% considerados necessários para interromper a transmissão;
  • centros de tratamento superlotados, especialmente no Kivu do Norte, operando com 139% da capacidade;
  • mais de 60% das mortes ocorrendo fora dos centros de tratamento, indicando falhas na identificação precoce dos pacientes;
  • insegurança causada pelos conflitos armados que dificultam o trabalho das equipes de saúde;
  • desinformação e dificuldades logísticas provocadas pelas más condições das estradas e pela baixa confiança de parte da população nas autoridades sanitárias.

A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) também classificou a situação como “mais crítica do que nunca” e alertou que a epidemia continua avançando em um ritmo considerado sem precedentes.

Ebola chega a campos de deslocados

A epidemia alcançou uma população extremamente vulnerável. A província de Ituri abriga cerca de 4,4 milhões de deslocados internos, muitos vivendo em campos marcados por superlotação, escassez de água potável e infraestrutura precária.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), 19 deslocados internos foram infectados e cinco morreram, com registros em pelo menos cinco dos 69 campos existentes na província. Especialistas alertam que essas condições favorecem a disseminação do vírus e dificultam o isolamento de casos suspeitos.

Mulheres e crianças seguem entre os grupos mais atingidos. Dados da UNICEF mostram que, até 2 de agosto, 743 crianças com até 17 anos haviam sido infectadas e 330 morreram. Entre menores de cinco anos, a taxa de letalidade é mais de duas vezes superior à observada entre adultos.

O avanço do Ebola também provocou uma queda de 42% na utilização de serviços essenciais de saúde entre abril e junho nas regiões mais afetadas, reflexo do medo da contaminação e da sobrecarga do sistema de atendimento.

Avanços na busca por vacinas

Apesar da gravidade do cenário, pesquisadores avançam na busca por alternativas para conter a variante Bundibugyo.

A OMS recomendou o início de ensaios clínicos em larga escala com a Ervebo, atualmente a única vacina aprovada contra a cepa Zaire. Estudos em animais indicam que ela pode oferecer algum nível de proteção cruzada contra a variante Bundibugyo. Em experimentos, três em cada quatro primatas vacinados sobreviveram à infecção, enquanto estudos realizados com furões apontaram proteção integral. Ainda assim, a OMS ressalta que o desenvolvimento de uma vacina específica para a cepa Bundibugyo continua sendo prioridade. Atualmente, duas candidatas encontram-se nas fases iniciais de testes clínicos em humanos.

Diante da rápida expansão do vírus, a comunidade internacional enfrenta o desafio de converter alertas em ações concretas. A superlotação dos centros de tratamento, a baixa cobertura no rastreamento de contatos e a chegada do Ebola a campos de deslocados indicam que, sem um esforço coordenado e urgente, o número de vítimas pode continuar crescendo nas próximas semanas.

Lente BNB

O maior surto de Ebola da história da República Democrática do Congo evidencia como crises sanitárias que atingem populações africanas continuam enfrentando dificuldades para mobilizar financiamento, infraestrutura e atenção internacional proporcionais à gravidade da situação.

A chegada do vírus a novas áreas, a superlotação dos centros de tratamento e a dificuldade para rastrear contatos expõem as fragilidades de um sistema de saúde que convive há décadas com conflitos armados, deslocamentos populacionais e escassez de investimentos públicos. Nesse contexto, combater o Ebola significa enfrentar não apenas um vírus, mas também desigualdades estruturais que dificultam qualquer resposta rápida.

O desafio agora é transformar os alertas internacionais em recursos, equipes médicas, infraestrutura e acesso a tratamentos antes que o número de vítimas continue crescendo. Para milhões de congoleses, controlar a epidemia depende tanto dos avanços científicos quanto da capacidade da comunidade internacional de responder com rapidez e de forma proporcional à dimensão da crise.

Fontes consultadas

  • AZERTAC: Ebola: au terme d’une visite en RDC, le chef de l’OMS appelle à intensifier la riposte (08/08/2026) — link
  • China Daily: DR Congo’s Ebola cases surpass 4,000 (08/08/2026) — link
  • Xinhua: Ebola takes severe toll on women, children in eastern DRC: UN (08/08/2026) — link
  • Qazinform: Ebola reaches displacement camps in DR Congo as outbreak worsens (08/08/2026) — link
  • ACP: Ebola en Ituri : Bunia reste le principal foyer de l’épidémie (06/08/2026) — link
  • Anadolu Agency: RDC: l’épidémie d’Ebola s’étend à deux nouvelles zones de santé (07/08/2026) — link
  • Angop: Surto de Ébola na RDC pode ter mutação do vírus (07/08/2026) — link

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