Eleições 2026
Sara Zara e a captura do voto negro
A pré-candidata a deputada federal Sara Zara (Avante-SP) tornou-se a aposta da centro-direita para atrair o eleitorado negro. Com discurso antirracista e trajetória de ativista, ela empresta sua imagem a um partido que historicamente não se alinha à pauta progressista, em uma estratégia calculada para deslocar votos de legendas que tradicionalmente defendem a causa negra.
Nesta terça-feira (11), a campanha eleitoral de 2026 escancara uma estratégia cada vez mais comum no espectro político da centro-direita: usar candidaturas negras com discurso progressista para capturar o voto de um eleitorado historicamente fiel a partidos de esquerda. A aposta mais recente é Sara Zara, pré-candidata a deputada federal por São Paulo pelo Avante (partido de centro-direita).
Comunicadora e ativista antirracista, Sara Zara construiu sua imagem pública nos últimos anos como uma voz atuante contra o racismo estrutural, o machismo e a desigualdade social. Nascida e criada na periferia de Belo Horizonte, migrou para São Paulo aos 14 anos, trabalhou como frentista, atendente de call center e faxineira antes de se firmar como trancista e, posteriormente, influenciadora digital. Sua trajetória de superação e seu engajamento em pautas raciais lhe renderam reconhecimento, incluindo a Medalha Theodosina Rosário Ribeiro, concedida pela Assembleia Legislativa de São Paulo.
Agora, ela disputa uma vaga na Câmara dos Deputados pelo Avante, um partido de centro-direita que, em 2022, apoiou a candidatura de Jair Bolsonaro à reeleição e que, ao longo dos anos, construiu alianças com setores conservadores do Congresso. A contradição não passou despercebida. Em artigo publicado no Hoje em Dia, o sociólogo Seu João Xavier questionou a escolha partidária de Sara Zara:
“O primeiro erro de Sára é, sendo quem é e tendo construído a trajetória que construiu, escolher uma legenda cuja posição política não parece dialogar de maneira evidente com o campo progressista ao qual sua imagem pública costuma estar associada.“
A crítica expõe o cerne da estratégia da centro-direita: usar a imagem de uma candidata negra e progressista para deslocar o voto negro de partidos que tradicionalmente defendem pautas raciais, como PT, PSOL e PCdoB, para legendas que, na prática, não têm compromisso histórico com a agenda antirracista.
Não é um fenômeno novo. Em eleições passadas, partidos de centro e direita já lançaram candidaturas negras com discursos de representatividade para tentar romper a hegemonia da esquerda sobre o eleitorado negro. O cálculo é simples: apresentar uma figura pública com credibilidade entre a população negra, especialmente entre jovens e periferias, para capturar votos que, de outra forma, iriam para candidatos historicamente alinhados à luta antirracista.
A própria Sara Zara reforça essa ambiguidade ao se definir como “mulher preta, progressista e nascida na favela”, mas ao mesmo tempo escolher uma legenda que não tem tradição nessas pautas. Ela argumenta que sua candidatura visa “garantir que a periferia ocupe Brasília com propriedade”, mas a pergunta que fica é: que tipo de ocupação será essa, se sua atuação no Congresso estará subordinada à disciplina de um partido de centro-direita?
O sociólogo Seu João Xavier ressalta outro ponto fundamental: representatividade sem projeto vira iconografia social. “Serve para dizer: ‘Temos uma mulher negra no nosso partido’. E fotografia não vota, não legisla, não apresenta emenda, não participa de comissão, não enfrenta liderança partidária e não decide orçamento.”
O alerta é direto: candidaturas como a de Sara Zara podem servir mais para legitimar a imagem de partidos conservadores do que para efetivamente transformar a realidade da população negra. Ao emprestar sua imagem e sua história ao Avante, ela ajuda a centro-direita a se apresentar como “inclusiva” e “diversa”, sem que isso se traduza em políticas públicas concretas.
Os cálculos eleitorais da centro-direita são claros: com a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro, o voto negro, que representa a maior parte do eleitorado brasileiro, é decisivo. Capturar uma parcela desse eleitorado para candidaturas de centro-direita significa enfraquecer a base eleitoral da esquerda e ampliar a capilaridade de partidos que, na prática, atuam contra os interesses da população negra. A pergunta que fica é: até quando a população negra será usada como vitrine eleitoral sem que sua pauta seja efetivamente incorporada ao projeto de poder dessas legendas?
Lente BNB
A candidatura de Sara Zara pelo Avante é um sintoma de um fenômeno mais amplo: a apropriação da pauta antirracista pela centro-direita como estratégia de captura de votos. Ao mesmo tempo em que partidos conservadores votam contra políticas de reparação, contra a ampliação de cotas e contra o combate ao racismo estrutural, eles lançam candidaturas negras para criar uma fachada de diversidade.
Esse movimento não é inocente. Ele busca desmobilizar o eleitorado negro, fragmentando sua representação política e deslocando votos de partidos que historicamente pautaram a agenda racial. A esquerda, por sua vez, precisa refletir sobre por que candidaturas como a de Sara Zara encontram espaço: a falta de capilaridade, a burocratização dos partidos progressistas e a dificuldade de dialogar com as periferias abrem brechas para que a centro-direita ocupe esse vazio com figuras carismáticas, mas sem compromisso real com a transformação estrutural.
A pergunta que a Lente BNB insiste em fazer é: quem realmente ganha com essa estratégia? A população negra, que vê sua pauta ser usada como moeda de troca eleitoral, ou a centro-direita, que amplia sua base sem precisar mudar uma vírgula de seu projeto político?
A resposta, infelizmente, parece ser a segunda opção. Enquanto a esquerda não conseguir converter sua defesa histórica da causa negra em candidaturas orgânicas e capilarizadas, a centro-direita continuará usando a representatividade como fachada para manter sua agenda conservadora, e o voto negro continuará sendo disputado como território de conquista, não como espaço de protagonismo.
Fontes consultadas
- Hoje em Dia: Duas perguntas para Sára Zarâ (11/08/2026) — link
- BRA1: Sára Zarâ lança abaixo-assinado contra o racismo e anuncia candidatura a deputada federal (24/07/2026) — link
- Fashion Bubbles: Quem é Sára Zarâ? Tudo sobre a influenciadora e ativista anti-racista — link
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