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Moçambique

Megaprojeto de gás coloca Moçambique no centro da disputa entre China e Ocidente

Nesta semana, a ExxonMobil selecionou o consórcio responsável pelo Rovuma LNG, projeto de US$ 30 bilhões que reforça a disputa entre Ocidente e China pelo gás natural de Moçambique.

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Nesta semana, a ExxonMobil selecionou o consórcio responsável pela construção do Rovuma LNG, avançando em mais uma etapa de um dos maiores projetos de gás natural da África. A empresa escolheu o consórcio SMDC — composto por Saipem (Itália), McDermott Energy Solutions (Reino Unido), Daewoo Engineering & Construction (Coreia do Sul) e China Petroleum Engineering & Construction (CPECC) — para liderar os serviços de engenharia, aquisição e construção (EPC) das instalações terrestres do projeto.

O Rovuma LNG deverá produzir 18,6 milhões de toneladas de gás natural liquefeito (LNG) por ano a partir de 2031. O empreendimento pode acrescentar cerca de US$ 11 bilhões anuais ao Produto Interno Bruto (PIB) de Moçambique e gerar mais de 150 mil empregos, tornando-se um dos maiores investimentos privados já planejados para a África.

A decisão final de investimento está prevista para 2026, com o governo moçambicano esperando que seja concretizada até setembro. “A seleção do nosso contratante EPC para as instalações em terra é um marco importante no avanço do projeto Rovuma LNG”, afirmou Johanna Boothey, presidente do conselho de administração da ExxonMobil Moçambique.

O projeto, no entanto, não é apenas um empreendimento econômico. Ele está no centro de uma reorganização geopolítica global que envolve Estados Unidos, Europa e China.

A disputa pelo gás moçambicano

Moçambique está no centro de uma disputa geopolítica que opõe Ocidente e China pelo controle de recursos energéticos na África. O Rovuma LNG é liderado pela ExxonMobil (EUA), mas sua composição societária revela a complexidade do tabuleiro. O projeto é operado pela Mozambique Rovuma Venture (MRV), uma joint venture que reúne ExxonMobil, a italiana ENI e a China National Petroleum Corporation (CNPC). A CNPC, maior petrolífera estatal da China, detém participação estratégica no projeto, assegurando a Pequim uma posição privilegiada no fornecimento de gás africano.

A presença chinesa não se limita à CNPC. O consórcio SMDC escolhido para a construção inclui a China Petroleum Engineering & Construction Corporation (CPECC), garantindo que a China participe ativamente da execução do megaprojeto.

Paralelamente, a TotalEnergies (França) lidera o projeto vizinho Mozambique LNG, na Área 1 da mesma bacia, que já atingiu cerca de 40% de conclusão. O projeto, orçado em US$ 20 bilhões, tem como compradores de longo prazo a CNOOC (China), a EDF (França) e a Shell (Reino Unido).

Europa: a guerra que redesenhou o mapa energético

A guerra na Ucrânia e a consequente redução do fornecimento de gás russo à Europa transformaram o gás moçambicano em um ativo estratégico para o Ocidente. A União Europeia apontou o gás natural de Moçambique como elemento relevante para reduzir a dependência europeia do gás russo. “Moçambique possui um potencial significativo para se tornar um parceiro relevante na estratégia energética da União Europeia”, afirmou Patrícia Llombart, diretora-geral para África do Serviço Europeu de Ação Externa.

A diretora-geral destacou os projetos liderados pela italiana ENI e pela francesa TotalEnergies como “muito importantes no atual contexto geopolítico, nomeadamente para a segurança energética da Europa“.

O tabuleiro geopolítico

O Rovuma LNG ilustra como Moçambique passou a ocupar posição estratégica na disputa energética global. Enquanto os Estados Unidos ampliam sua presença por meio da ExxonMobil, a China participa tanto da produção quanto da construção do projeto, e a Europa busca novas fontes de abastecimento após a redução das importações de gás russo.

O gás de Cabo Delgado, portanto, não é apenas um recurso econômico para Moçambique. É uma peça-chave na nova ordem energética global, onde África, China, Estados Unidos e Europa disputam influência sobre um dos mercados mais estratégicos do século.

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O Rovuma LNG evidencia um padrão recorrente na história africana: grandes potências disputam recursos estratégicos enquanto o principal desafio continua sendo transformar riqueza natural em desenvolvimento para a população local.

Os Estados Unidos ampliam sua presença por meio da ExxonMobil, enquanto a China consolida sua atuação em diferentes etapas da cadeia energética do projeto. Ao mesmo tempo, a Europa busca reduzir sua dependência energética após a guerra na Ucrânia. Nesse cenário, Moçambique deixa de ser apenas fornecedor de gás para ocupar posição estratégica na reorganização do mercado energético mundial.

A questão central, porém, permanece a mesma: a riqueza produzida em Cabo Delgado será convertida em empregos, infraestrutura e qualidade de vida para a população moçambicana ou repetirá o histórico africano de extração de recursos com benefícios concentrados em poucos atores? A resposta dependerá da capacidade do Estado moçambicano de transformar essa riqueza natural em desenvolvimento para sua população, especialmente para as comunidades que vivem sobre uma das maiores reservas de gás do continente.

Fontes consultadas

  • ExxonMobil: Rovuma LNG projectlink
  • PRNewswire: ExxonMobil in Mozambique Awards McDermott Letter of Intent (06/08/2026) — link
  • RTP: ExxonMobil já escolheu empreiteiro para megaprojeto de gás em Moçambique (06/08/2026) — link
  • Observador: UE destaca gás de Moçambique na diversificação energética (19/06/2026) — link
  • AIM: TotalEnergies and ExxonMobil launch joint tender (24/02/2026) — link

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